Materiais de construção: inovação como requisito estratégico para o setor

A transformação profunda em curso na área de construção civil, impulsionada pela necessidade de oferecer ao consumidor soluções mais eficientes, sustentáveis e tecnológicas, deixou claro às empresas do setor que inovação não é mais um simples diferencial. Virou requisito estratégico a quem quer se manter competitivo e relevante. As integrantes do top 5 do prêmio Valor Inovação Brasil 2025 na categoria materiais de construção sabem bem disso. No caso da primeira colocada, a Dexco, detentora de marcas como Deca, Portinari e Hydra, seu CEO, Raul Guaragna, diz que a inovação é tanto elemento estratégico quanto parte indissociável da cultura.

“Enxergamos como força capaz de criar valor sustentável, seja utilizando tecnologia, novos modelos de negócio ou promovendo a melhoria contínua dos nossos processos e produtos. E ela não está restrita ao desenvolvimento de soluções de ponta, mas também ao nosso jeito de pensar e agir, simplificar desafios e aprender com os erros”, afirma. O diretor de TI e growth, Daniel Franco, acrescenta que, dos R$ 2,5 bilhões aprovados para o crescimento da companhia entre 2021 e 2026, 10% são voltados à inovação disruptiva, ou seja, a startups que, como ele diz, “podem mudar o paradigma construtivo nacional”.

Uma frente fundamental é o investimento em novos negócios, open innovation e corporate venture capital. Só o programa Open Dexco alocou, nos últimos três anos, R$ 2,7 milhões em 35 projetos-piloto para resolver “dores” de qualquer natureza do negócio. Um deles veio da Subiter, empresa de base tecnológica especializada em visão infravermelha que apresentou o método macrografia de superfície com luz direcionada (MSLD) para analisar a porosidade na superfície de painéis de MDF da Dexco. Antes, a empresa aplicava tolueno nos painéis, um processo demorado e que gerava grande perda de material. Com o MSLD, que ainda está sendo escalado, houve ganho de tempo e economia de custos, incluindo mais de R$ 1 milhão com a redução no uso de resinas ao longo de um ano.

Ainda nessa linha de investimentos, o fundo de corporate venture DX Ventures agregou diversas startups com soluções relacionadas ao seu core business. Caso da Brasil ao Cubo, especializada em soluções construtivas ágeis. Juntas, elas lançaram no ano passado a Casa DX, residência de alto padrão entregue toda equipada e acabada.

“Esse é um dos nossos principais projetos de inovação. O diferencial é que a residência é construída antes, na fábrica, de forma modular, com encaixes como se fosse Lego. Entre comprar e pegar as chaves, são apenas 120 dias”, destaca Franco. Até o momento, 12 unidades foram vendidas, com preços entre R$ 1,8 milhão e R$ 2,55 milhões. Outro lançamento, em colaboração com uma das startups investidas — a ABC da Construção —, é a flagship store Casa Dexco, com itens de reforma e decoração, inaugurada em maio, em São Paulo.

Só que antes de ter essas parcerias que geraram frutos de sucesso, a Dexco sofreu com erros. “Isso é o que mais acontece quando se fala em inovação. Em nosso trabalho, aprendemos fazendo investimentos errados. Um deles foi na startup Viva Decora, que acabamos matando por conta do nosso peso corporativo”, recorda Franco. “Mas esse processo nos trouxe muitos ensinamentos, sendo o principal que, para atuar nesse ecossistema, devemos dar mais liberdade e manter certa distância da investida.”

Segunda empresa do setor de materiais de construção mais inovadora do Brasil, a Ciser, fabricante de fixadores, começou a investir mais fortemente em inovação em 2020, a partir da contratação do head de inovação, Aluísio Goulart, e da criação do hub Colmeia, que engloba as áreas de P&D avançada, inovação aberta e gestão de projetos.

“No hub, fazemos a gestão das iniciativas de inovação, desde a identificação da dor e a ideação, passando pelo desenvolvimento de tecnologia e de projeto, até o pós-lançamento”, diz Goulart. “Quando a gente entrega uma inovação para a Ciser, ela já passou por um período de teste real. Foi para o mercado e está confirmada.” Mas ele acrescenta que, até chegar a isso, muitas ideias ficam pelo caminho. “Temos um indicador na área de inovação que parece contraproducente. É o indicador de mortalidade de ideias. Trabalhamos para que nos processos, antes de virar projeto, a gente mate no mínimo 75% das ideias. E vamos matar mais 20% até virar projeto. Então, só 5% das nossas ideias viram iniciativas, e elas têm que ser as melhores.”

Na estrutura de trabalho do hub Colmeia, tudo o que é do core business da companhia é desenvolvido pela área de P&D avançada, e o que não é acaba sendo trabalhado junto com parceiros (startups, universidades etc.). “As empresas, um tempo atrás, costumavam ter toda a área de desenvolvimento fazendo todo o processo dentro de casa, mesmo o que não era do seu core. Só que isso tira muito da velocidade. Então, hoje, a gente diferencia o que é core, e nisso somos rápidos e bons, e, no que não é, utilizamos um parceiro, que seja rápido e bom”, descreve Goulart.

Para fomentar a inovação, a Ciser possui alguns programas, como o HackaCiser (hackaton voltado para solucionar problemas internos) e o Desafix (busca startups para solução de problemas operacionais, de custo etc.) Com investimento entre 1% e 5% da receita operacional líquida em inovação, a empresa desenvolveu uma série de novos produtos, como o Nanotec 45K (revestimento para aplicação em fixadores instalados em ambientes altamente corrosivos por chuva ácida).

A Saint-Gobain, que projeta, fabrica e distribui materiais e soluções para os mercados de construção e indústria, e é a terceira empresa mais inovadora do setor, trata a inovação como pilar central de sua estratégia global e local. Prova disso, diz o diretor de P&D e inovação para a América Latina, Dimitri Nogueira, é que a companhia registra mais de 450 novas patentes por ano e cerca de 25% dos produtos comercializados foram desenvolvidos nos últimos cinco anos.

A multinacional tem oito centros de P&D no mundo que atuam de forma transversal para identificar oportunidades, necessidades e desenvolver soluções. Um deles fica no Brasil — em Capivari, no interior de São Paulo — e atende a América Latina. As inovações desenvolvidas localmente, conforme a Saint-Gobain, geraram entre 10% e 20% da receita líquida e da redução de custos nos últimos três anos.

Grande foco das ações da empresa é o enfrentamento da crise climática, tanto que ela se comprometeu com a neutralidade de carbono até 2050. No Brasil, os esforços nesse sentido resultaram no desenvolvimento recente de dois produtos sustentáveis para a marca Quartzolit: a argamassa Rende Mais ACIII Plus, que, como especifica, rende o dobro com metade do peso e promove redução de 16% na pegada de carbono, e o piso autonivelante Uretano SL, formulado com plastificantes de base vegetal (óleo de soja e D-Limoneno) e com potencial de redução de 20% nas emissões de CO2.

Quarta colocada no ranking, a Tigre, líder em tubos e conexões de PVC, investe cerca de 1% do seu faturamento anual em inovação. “Este é um compromisso estratégico e contínuo, que se manteve em diversos cenários econômicos”, afirma o head de inovação, Guilherme Lutti. “E tem sido um dos grandes diferenciais competitivos da Tigre. Entre 6% e 7% da nossa receita já provém de produtos lançados nos últimos cinco anos, o que demonstra que a inovação não só abre portas em novos mercados, como também gera fidelização de clientes ao entregar soluções mais eficazes, sustentáveis e adaptadas às demandas atuais”, avalia.

Segundo Lutti, o trabalho em inovação é orientado à resolução de problemas concretos. Um exemplo é a Multifam, estação de tratamento com capacidade para atender até duas mil residências e que, segundo a empresa, mantém a eficiência com menor impacto ambiental — consome 45% menos energia e ocupa área 40% menor. O que também alavanca os negócios são parcerias com startups, universidades, organizações do terceiro setor e outras empresas. Uma das mais recentes foi firmada com a Linedata, para ofertar maior eficiência operacional aos processos das companhias de saneamento, a fim de reduzir perdas, otimizar processos e melhorar a cooperação na resolução de problemas.

Os esforços em inovação da quinta empresa mais inovadora do setor, a Votorantim Cimentos, têm como foco aumento de competitividade, descarbonização e crescimento por meio de novos produtos e modelos de negócios. O investimento para isso, nos últimos cinco anos, somou R$ 960 milhões. Em 2024, foram R$ 278 milhões em 74 iniciativas, incluindo um projeto-piloto de captura de carbono na unidade de Alconera, na Espanha.

O Brasil também foi palco de algumas soluções desenvolvidas no ano passado. Marcio Yamachira, diretor global de planejamento estratégico e inovação, cita duas: um otimizador de combustíveis, que visa reduzir o uso de combustíveis fósseis, e uma ferramenta de CRM para melhorar a interação com clientes e a produtividade dos vendedores. “Esses são dois exemplos de como usamos a inovação para acelerar nossa estratégia, catalisar a nossa evolução cultural e ter essa cultura de experimentação, uma cultura de tolerância ao erro, de desafiar o status quo e de pensar no todo”, diz.

Fonte: Valor Econômico – Por Renata Turbiani – 19/08/2025

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