O presidente Jair Bolsonaro cancelou um jantar do qual participaria com empresários do Grupo Esfera na semana que vem, dia 11, em São Paulo. Ele também desistiu de ir à sabatina com industriais na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), marcado para a mesma data. Já estiveram na entidade Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é aguardado para o dia 9.

A ida do presidente a São Paulo coincidiria com o lançamento de dois manifestos pela democracia que vêm tendo ampla adesão de diversos setores da sociedade, como empresários, banqueiros, intelectuais, acadêmicos e artistas.

A sabatina na Fiesp estava marcada para o dia 12 e havia sido antecipada em um dia a pedido do próprio presidente, segundo a entidade.

Uma das fontes com quem o Valor conversou disse que Bolsonaro não cancelou sua participação nos eventos do Esfera e da Fiesp, mas apenas “adiou”. Uma nova data para a viagem do presidente, no entanto, ainda não foi marcada.

Embora não digam categoricamente que o cancelamento tem relação com esses movimentos, auxiliares avaliam que a ida a São Paulo nessa data poderia trazer constrangimentos ao presidente.

Um dos documentos que serão lançados é a “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”, que tem entre os signatários o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal. A adesão ao manifesto é livre e, até 20 horas de ontem somava 721 mil assinaturas.

A carta será lida na mesma data no largo São Francisco, em São Paulo, em frente à Faculdade de Direito da USP. Mas organizadores pretendem transformar o evento em uma marcha.

Bolsonaro se referiu ao tema ao discursar durante encontro com empresários e prefeitos de Mato Grosso e o governador do Estado, Mauro Mendes (União Brasil), no Palácio Alvorada.

“Assinar papel qualquer um assina. Agora, dar demonstração na prática que é democrata é algo completamente diferente. Estamos há três anos e meio no governo, não tem uma palavra minha, uma ação minha tentando ferir a nossa Constituição”, afirmou. No entanto, o presidente faz sistematicos ataques ao sistema eleitoral e não se comprometeu a reconhecer o resultado caso não seja eleito.

Mais cedo, Bolsonaro também reclamou das cartas em um culto com a bancada evangélica na Câmara dos Deputados, afirmando que os signatários não protestaram contra o fechamento de comércio e medidas de isolamento durante a pandemia.

“Nenhum daqueles que assinam cartinhas por aí se manifestaram naquele momento”, afirmou. “Fizeram barbaridades e ninguém falou a palavra ‘democracia’. Tudo podia ser feito. Fui contra tudo isso, até quando certos direitos foram suprimidos por governadores e prefeitos”, disse. “Vocês sentiram um pouco do que é ditadura. Nenhum daqueles que assinam cartinhas por aí se manifestaram naquele momento.” A adoção de medidas de isolamento social durante a pandemia, sobretudo antes da vacinação contra covid-19, foi prática recomendada pela Organização Mundial da Saúde e adotada no mundo inteiro.


Fonte: Valor Econômico - Política, por Fabio Murakawa, Matheus Schuch e Raphael Di Cunto — De Brasília, 04/08/2022