Voltei ao centro de São Paulo depois de um tempão sem aparecer. A experiência, numa sexta feira chuvosa, foi triste.

Na Barão de Itapetininga, em frente a lojas fechadas, vendedores de quinquilharias tomam a rua. No Teatro Municipal, um posto avançado das Casas Bahia oferece fogões em oferta. Quem dribla o stand gigantesco que ocupa metade da calçada tem que desviar dos vendedores de máscaras que ocupam a outra metade.

Na Sete de Abril, cujo piso sofreu uma cara reforma há poucos anos, buracos gigantescos ameaçam os pedestres. Na praça Dom José Gaspar, uma bicicleta passa zunindo e atinge um homem na barriga. O xingamento ecoa nas paredes vazias, sem sensibilizar ninguém.

Atravesso o Anhangabaú. A reforma do vale terminou, mas não há prazo para a inauguração. Tudo está cercado por grades.


Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, um ano após o início da quarentena no estado - Rivaldo Gomes - 23.mar/Folhapress

Na praça do Patriarca, embaixo da marquise, uma dezena de barracas cerca a entrada da galeria Prestes Maia. Nos calçadões, as mesmas pedras portuguesas escorregadias e esburacadas. No largo São Bento, aquele simpático jogo de xadrez gigante deu lugar a um acampamento que tem até uma fogueira. O Café Girondino, iluminado e quentinho parece uma miragem. De volta ao vale, vejo o restaurante Guanabara e o Bovinus fechados.

 

O centro não é apenas mais um pedaço de São Paulo. É o lugar que ainda carrega parte de nossa memória afetiva e talvez pudesse ser o último símbolo comum de uma cidade tão dividida. Quando nossos avós diziam “vou à cidade”, estavam verbalizando o que todos sentiam. O centro era A cidade.

No mundo e no Brasil, as grandes cidades tentam requalificar seus centros históricos, como uma maneira de resgatar um pouco dessa herança comum. Aqui, conversei com pessoas da Prefeitura para entender em que pé estão os projetos para o centro. É sintomático. Há muita coisa sendo planejada mas tudo parece estar no futuro.

A iniciativa mais importante é algo chamado PIU, o Projeto de Intervenção Urbana Setor Central, que busca tornar a região mais atrativa para novos moradores, algo que a Operação Urbana Centro, que já tem quase trinta anos, não conseguiu mudar. O PIU já foi apresentado em audiências públicas e encaminhado à Câmara. Infelizmente, em um lance que parece estar ficando mais e mais comum no Brasil, foi contestado na Justiça por partidos de oposição, que exigem que o projeto tenha um estudo de impacto ambiental. Enquanto isso, continuamos com o Minhocão lançando sua sombra úmida sobre as ruas, os feios viadutos cortando o Parque Dom Pedro e a cracolândia desafiando todas as gestões.

Diante disso, resta confiar nas ações pontuais.

Comecemos pelas calçadas. A Prefeitura anunciou na gestão passada, um plano de trocar as calçadas do centro. Existia até uma Comissão Permanente de Calçadas, que iria fazer parcerias com entidades privadas, como o Santander e chegou a escolher um novo tipo de piso. A Comissão foi desfeita, foi criado um projeto executivo que promete mudanças mas os buracos continuam lá. Há tubos e fios de 25 concessionárias diferentes embaixo da calçada; trocar tudo não é fácil, mas não é exigir demais que se faça pelo menos a manutenção cotidiana.

Se problemas mais simples não são resolvidos, é pouco provável que o poder público consiga envolver as áreas necessárias para lidar com uma questão muito mais complexa: o acolhimento de tantas pessoas que estão morando nas ruas.

Há muitas outras frentes, mas é o novo Anhangabaú que recebeu os maiores investimentos. Apesar das críticas ao projeto, é melhor aguardar que o espaço esteja inaugurado para avaliá-lo. A presença das pessoas pode sempre trazer surpresas positivas aos espaços públicos, como aconteceu, por exemplo, na praça Roosevelt.

Conversei com o arquiteto Mario Biselli, responsável pelo projeto. Ele tem uma visão interessante sobre as possibilidades de uso do novo vale, como uma grande esplanada, capaz de atrair milhares de pessoas. Enquanto a Prefeitura espera a pandemia amainar para decidir sobre a inauguração, podemos apenas imaginar como será o lugar com as lojas e as ousadas fontes luminosas. Por enquanto, o único grupo que está usando o espaço são os skatistas no eixo da São João, que pelo menos, já não tem mais os infames banheiros abandonados que enfeiavam a região.

Todo mundo fala do centro. A Prefeitura está se ocupando do centro. Milhões de pessoas circulam pelo centro. Mas o fato é que a maneira como ele está sendo tratado há décadas conta muito sobre a nossa fragmentação. A volta gradual de funcionários de empresas e órgãos públicos que estão trabalhando de casa na pandema vai ajudar a trazer parte da vitalidade de volta, mas vai ser preciso muito mais empenho para atrair moradores, empresas, turistas e colar os caquinhos do centro de São Paulo de volta.


Fonte: Folha de São Paulo , 18/06/2021