O tom mais combativo adotado pelo Banco Central na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) deflagrou uma série de revisões de cenário dos agentes do mercado para a trajetória esperada para a taxa básica de juros. Com o apontamento de que pretende levar a Selic para o nível considerado neutro no atual ciclo de alta de juros, houve forte migração das expectativas dos agentes para a taxa em 6,5% no fim do ano, que passou a ser a mediana das projeções. No entanto, boa parte do mercado já trabalha com níveis ainda mais altos para a taxa em 2022.

Em pesquisa do Valor realizada ontem com 75 instituições financeiras e consultorias, 68 acreditam que a Selic terminará este ano em 6,5% ao ano ou acima desse nível. Para efeito comparativo, no levantamento feito antes da reunião do Copom com 104 instituições financeiras, 40 esperavam que a taxa encerrasse o ano em 6,5% ou acima.

 

“O BC se ajustou ao que se mostrou ser realidade: a inflação está mais pressionada, o processo de vacinação deve acelerar e, assim, a demanda reprimida deve começar a se soltar. Assim, o setor de serviços pode começar a se recuperar”, afirma a economista-chefe da Azimut Brasil, Helena Veronese, que elevou sua projeção para a Selic no fim do ano de 5,5% para 6,5%.

A economista aponta, ainda, o repasse dos preços no atacado para o consumidor. “A inflação não é mais algo temporário. O BC só ajustou o discurso ao que já estava no cenário. É preciso agir para que isso não respingue em 2022”, diz.

Um dos pontos que chamaram a atenção dos agentes do mercado na decisão do Copom foi a possibilidade de uma aceleração no ritmo de ajustes. Essa hipótese teve forte impacto no mercado ontem e fez a curva de juros (que mostra a evolução das taxas ao longo do tempo) apontar chance majoritária de alta de 1 ponto percentual na taxa básica em agosto, nas contas do estrategista-chefe da Renascença, Sérgio Goldenstein. Além disso, o nível precificado na curva para a Selic no fim do ano chegou a 7,25%.

“Projetamos inflação de 4% em 2022. Se o BC estima um juro neutro de 3% em termos reais, ele teria que chegar ao fim do ano com pelo menos 7% e, possivelmente, ir um pouco para o campo restritivo para sinalizar que está disposto a combater o movimento nas expectativas. Para isso, o adequado seria acelerar o ritmo”, afirma o economista-chefe da Occam, Paulo Val. A gestora carioca é uma das casas que esperam aumento de 1 ponto na Selic em agosto.

No cenário básico da Occam, o Copom deve efetuar duas altas de 1 ponto; uma de 0,75 ponto em outubro; e um aumento final de 0,50 ponto em dezembro. Assim, a Selic terminaria o ano em 7,5%. “A partir daí é estabilidade. É preciso lembrar, ainda, que 2022 será um ano complicado e, assim, não vemos espaço para se fazer um grande afrouxamento”, afirma Val.

Para o superintendente de pesquisa econômica do Santander, Mauricio Oreng, as chances de o BC colocar a Selic em 7% mais rapidamente que o esperado pelo banco “estão crescendo”. Ele destaca que importantes riscos inflacionários permanecem sobre a mesa e “sugerem a possibilidade de o BC trabalhar com uma taxa levemente apertada ao fim deste ciclo”.

No momento, o Santander projeta mais uma alta de 0,75 ponto, seguida de quatro aumentos de 0,50 ponto na Selic, que chegaria a 6,5% em dezembro e a 7% na primeira reunião do Copom de 2022. Oreng, porém, acredita que o Copom poderia manter o ritmo atual de elevação de juros por mais tempo. “Se ele for a passos de 0,75 ponto toda a vida, finalizaria o ciclo em 6,5% já em outubro. Então fazer mais não necessariamente é dar 1 ponto de alta na próxima reunião.”

O economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral, diz acreditar que uma alta de 1 ponto na Selic em outubro não será necessária. “Estamos vendo o câmbio se valorizar, o que ajuda na inflação ligada a commodities e segura um pouco as expectativas.”

O economista, assim, projeta nova elevação de 0,75 ponto na próxima reunião e vê a Selic em 6,5% no fim deste ano e ao longo de 2022. “O mercado está, agora, precificando a chance de uma alta de 1 ponto em agosto, mas estamos no momento de esperar e ver o que vai acontecer com a inflação e com as expectativas até lá”, afirma.

É possível observar que boa parte do mercado migrou para cenários que contemplam a taxa em níveis contracionistas. No levantamento do Valor, 28 instituições financeiras projetam o juro básico em 7% ou mais no ano que vem.

“Estamos colocando um viés altista para a Selic no ano que vem, como uma chance de ir a 7% ou acima disso”, afirma o economista João Leal, da Rio Bravo, que hoje projeta o juro básico em 6,5% ao fim de 2021 e também de 2022. Para ele, “uma perspectiva de alta e de possível desancoragem das expectativas de inflação poderia forçar o BC a subir o juro acima do neutro para garantir um compromisso com a meta”. Leal, inclusive, diz ver esse cenário “como um risco extremamente grande”.

Distante do consenso, a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, acredita que a Selic terminará o ano em 5,75%, nível que será mantido em 2022. “O Copom foi firme para controlar as expectativas, mas eu não acredito que vamos precisar de tantas altas assim”, diz.

A chave está no juro real neutro. “O mercado tem números mais próximos a 3%, mas acho que é um nível alto, considerando que ainda temos um cenário externo com taxas reais negativas e não estamos vendo um descontrole fiscal aqui”, diz. O Inter calcula uma taxa neutra de 2% a 2,5% em termos reais.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Felipe Saturnino — De São Paulo, 18/06/2021