O movimento de cautela global após a surpresa ‘hawk’ (inclinada à retirada de estímulos) por parte do Federal Reserve acabou passando longe do mercado de câmbio local no pregão de ontem. Na contramão de praticamente todas as demais divisas, emergentes ou desenvolvidas, o real voltou a se fortalecer contra o dólar, beneficiado pelo tom também mais duro do Copom no comunicado de quarta-feira. Com isso, a moeda brasileira voltou a se aproximar do patamar psicológico dos R$ 5,00.

Após tocar R$ 5,0083 na mínima intradiária, a moeda americana fechou em baixa de 0,72%, a R$ 5,0226. Além do real, o dólar caiu apenas contra o rublo russo (0,27%) e o iene japonês (0,72%).

As moedas globais continuaram repercutindo o Fed. Na quarta-feira, o BC americano surpreendeu ao antecipar a expectativa por altas de juros e trazer de volta o receio de redução da ampla liquidez global, que tem mantido fraco o dólar. Na contramão desse movimento, o real e o rublo russo se sobressaíram justamente por terem suporte de BCs que já se destacavam, anteriormente, por exibir uma postura mais ‘hawk’ em um momento em que muitos países ainda mantêm uma política monetária acomodatícia para lidar com efeitos da pandemia da covid.

“Acredito que o tom incrementalmente mais ‘hawk’ do Copom definitivamente ofusca a decisão do Fed”, diz Sacha Tihanyi, chefe de estratégia para mercados emergentes do TD Securities. “Não apenas porque existe chance de aceleração do ritmo de aperto da política monetária no Brasil, mas porque muito do que vemos neste momento provavelmente é uma reação pontual do mercado ao tom do comunicado do Fed. Acho que esta última não deve durar, retirando pressão sobre as moedas emergentes e também o real.”

Na quarta-feira, após o Fed, o Copom retirou a menção à normalização parcial e já indicou novo aumento de 0,75 ponto na Selic em agosto. A inflexão do comitê refletiu-se imediatamente nas projeções do mercado financeiro para a Selic. No fim do dia, a curva de juros precificava um juro básico em 7,25% no fim do ano. Cresceu também a chance de uma elevação de 1 ponto porcentual já em agosto.

“A mudança do Copom deve ser um vento de cauda para o real no curto prazo. Isto é particularmente importante em vista da sinalização de uma possível intensificação do ritmo de altas”, diz o Citi.

“A postura paciente do Fed era um dos principais fatores inibindo uma maior volatilidade dos ativos emergentes. A mudança, embora já precificada na ponta curta da curva de juros americana, vem em um momento em que outros ventos favoráveis para emergentes começam a se enfraquecer”, nota o UBS, citando a desaceleração do crescimento das exportações agregadas desses países e também indicadores de apetite de risco para essa classe de ativos próximos de pontos de reversão. “Isto ajuda a reforçar nossa visão de que os retornos de emergentes no segundo semestre serão mais modestos.”

A redução do otimismo do UBS com as perspectivas dos emergentes, por outro lado, tem exceções. “Alguns BCs passaram a mostrar uma postura mais dura recentemente”, salienta o banco suíço, citando como exemplo, além de Rússia e Brasil, Coreia do Sul, Hungria e Chile. Esse movimento “ajuda a resguardar a credibilidade das respectivas autoridades monetárias e melhora o diferencial de juros, que estavam em patamares muito baixos no início do ano”.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe — De São Paulo, 18/06/2021