Sem maiores surpresas, a saída do impacto de reajustes de combustíveis deu alívio à inflação em abril, mas a desaceleração será temporária e pressões remanescentes nos bens industriais não devem sair de cena tão cedo, avaliam economistas. Por isso, a alta de 0,31% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no mês passado, divulgada ontem pelo IBGE, não foi considerada uma boa notícia no front inflacionário, que segue desconfortável para o Banco Central.

O resultado ficou praticamente em linha com mediana de estimativas de 35 analistas ouvidos pelo Valor Data, que previam aumento de 0,29% no período, depois de 0,93% em março. Em 12 meses, porém, a inflação acumulada até abril atingiu 6,76%, nível mais elevado desde novembro de 2016 (6,99%) e acima do teto da meta para 2021, de 5,25%.

Na passagem mensal, a descompressão do IPCA foi influenciada principalmente pelos combustíveis, que deixaram alta de 11,23% no mês passado e registraram deflação de 0,94%. Juntas, a retração de 0,44% da gasolina e de 4,93% do etanol “retiraram” 0,07 ponto do indicador no mês, calcula Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco.

Outras ajudas vieram da parte de habitação, que desacelerou de 0,81% para 0,22%, e da inflação do setor de serviços, que, com dificuldade de recompor margens em meio à pandemia, subiu apenas 0,05% no mês, vindo de 0,12% em março. Nos 12 meses terminados em abril, o conjunto que reúne preços como cabeleireiro, empregado doméstico e aluguel aumentou apenas 1,44%.

Segundo Pedro Kislanov, gerente do IPCA, os números mostram que não há pressão de demanda nesse ramo de atividade e refletem o aumento de medidas de restrição à mobilidade após o agravamento da covid-19.

Apesar do comportamento dos serviços e da perda de ímpeto do IPCA, a evolução de outros grupos impediu uma leitura favorável do índice pelo mercado. Após a autorização de reajustes no início do mês, os medicamentos subiram 2,69%. “Há uma discussão sobre a suspensão desses reajustes no Senado, mas os preços já subiram e o IPCA capturou a alta”, observa Julia.

Os alimentos no domicílio também ficaram mais caros, ao avançarem 0,47%, após queda de 0,17% na medição anterior. Desta vez, a alta veio da parte de proteínas, com aumento de 1% de carnes, destaca a economista do Itaú, que relaciona os preços maiores à valorização recente das commodities agrícolas.

Para ela, no entanto, o principal exemplo de que a dinâmica inflacionária ainda desperta atenção é um núcleo de inflação subjacente de bens industriais e serviços, o IPCA-EX3. No ano terminado em abril, essa medida subiu 3,8%, mas em um cálculo dessazonalizado e anualizado, a alta é de 5%, nível em que está rodando desde o terceiro trimestre do ano passado, ressalta Julia.

“Esse é um patamar alto frente à meta, que ainda inspira monitoramento. Do ponto de vista da política monetária, ele está em linha com a leitura do Banco Central, de que as medidas de inflação subjacente apresentam-se no topo do intervalo compatível com a meta de inflação.”

Também mencionando uma medida subjacente, Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos, observa que a inflação de bens industriais aumentou de 0,3% para 0,8% entre março e abril. Nesse cálculo, explica ele, a autoridade monetária exclui os preços de etanol, cigarros e automóvel novo.

Numa média móvel trimestral anualizada e dessazonalizada, esse núcleo está acima de 5%, nota Sobral. “Essa parte de industrializados não deve gerar alívio tão cedo”, diz o economista, que aponta a valorização das commodities, a escassez de alguns insumos e o encarecimento de fretes como fatores que pressionaram os preços de bens manufaturados em todo o mundo. “Alguns custos explodiram e isso vai parar na inflação ao consumidor.”

Para o economista Fabio Romão, da LCA Consultores, os bens industriais serão um dos novos “protagonistas” da inflação. Ele estima que esses preços vão subir 4,75% em 2021, ante 3,16% no ano passado.

“Temos pressões de custos espraiadas em vários estágios de produção até chegar no varejo, de commodities, bens intermediários... Essa pressão já tem chegado e vai continuar”, diz ele. “Mesmo com o risco de perder a clientela, o empresário acabará repassando esse custo.”

De acordo com Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, choques de custos no atacado devido aos preços maiores de commodities e à depreciação do câmbio continuam chegando ao consumidor, ainda que em ritmo mais fraco do que nos meses anteriores.

Outros impactos de alta na inflação devem vir dos alimentos, assim como dos combustíveis, uma vez que os preços domésticos da gasolina ainda estão cerca de 15% abaixo dos externos, acrescenta Secemski. Incorporando esses efeitos sobre a inflação anual, ele elevou sua projeção para o aumento do IPCA em 2021, de 5% para 5,2%.

No curto prazo, o acionamento do patamar 1 da bandeira tarifária vermelha, que encarece as contas de luz, deve acelerar o IPCA para cerca de 0,70% em maio, estima o economista, o que vai levar o índice em 12 meses a 7,9%. “As tarifas de eletricidade podem subir mais em junho ou julho se as condições hidrológicas ruins persistirem”, alertou.

Para Sobral, da NEO, a inflação de alimentos tem uma alta “contratada” em razão da elevação já observada nas commodities. Por isso e também pelo aumento das contas de luz, a gestora estima que o IPCA vai avançar a cerca de 0,60% neste mês. Para 2021, o economista prevê alta de 5,7% do indicador, acima do consenso de mercado (5,15%).

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio, 12/05/2021