Um menor estímulo fiscal e o efeito cumulativo negativo dos choques econômicos provocados pela pandemia sobre empresas e famílias, aliados ao lento ritmo de vacinação no país, devem impedir um crescimento mais expressivo da atividade neste ano, segundo o professor Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada (Cemap), da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV).

Mais pessimista que a mediana do mercado, ele espera crescimento de apenas 2,1% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2021, estimativa que também é a mínima registrada no boletim Focus, do Banco Central, que colhe projeções entre algumas dezenas de instituições do mercado financeiro. A mediana do Focus está em expansão de 3% neste ano.

O nowcast desenvolvido pelo Cemap, que estima a atividade em tempo real a partir de uma série de indicadores, aponta pequena alta de 0,2% para o PIB do primeiro trimestre, sobre o último três meses de 2020, com base em dados disponíveis até dia 28 de abril. O dado é usada como insumo para o modelo de previsão para o ano.

A previsão do primeiro trimestre parte dos bons números de atividade já divulgado para janeiro e fevereiro, mas adicionados de uma previsão de queda em março diante do recrudescimento da pandemia, algo que afetou com mais intensidade o mês de abril e pode gerar um segundo trimestre negativo.

A recuperação deve vir no segundo semestre, mas num ritmo mais fraco que a maioria das previsões, diz o economista.

“A economia deve começar a andar em junho, depois de um maio de lado. Estou mais pessimista quanto ao terceiro e quarto trimestre. Houve uma forte sequência de choques sobre a economia, muitas empresas estão passando por dificuldades e a vacinação não avança”, diz Marçal, que não vê ainda elementos que garantam um crescimento mais forte até o fim do ano. Ele ainda cita inflação e juros de longo prazo mais altos, que ajudam a tirar fôlego do crescimento.

A reedição - com bastante atraso - de programas de apoio como o auxílio emergencial e o BEm, de proteção ao emprego formal, tem menor potência neste ano, e os problemas fiscais não só da União, mas de Estados e municípios, cresceram, observa. “2021 deve ser um repeteco do ano passado, um primeiro semestre pior e um segundo semestre de recuperação”, diz. A diferença é a magnitude.

Na comparação com mesmo trimestre do ano passado, as estimativas do Cemap são de queda de 0,8% no primeiro trimestre, alta de 8% no segundo trimestre e de 1,1% no terceiro e quarto trimestres. No Focus, as previsões chegaram a apontar queda de 1% no primeiro trimestre, e agora estão na casa do 0,60% negativo. Mas as estimativas para os trimestres seguintes têm sido reduzidas lentamente nas últimas semanas.

Marçal pondera que a construção de cenários macroeconômicos neste ano tem sido especialmente difícil, até por questões de ordem política. A CPI da pandemia e os embates entre Executivo, Legislativo e Judiciário contribuem para injetar mais incertezas ao cenário.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Ana Conceição — De São Paulo, 03/05/2021