A aprovação do Orçamento e o cenário externo mais benigno abrem uma janela para o real se valorizar, avaliam profissionais ouvidos pelo Valor. Passado o fantasma fiscal, há quem fale, inclusive, que a moeda americana pode ter atingido seu pico no ano.

Esses fatores permitiram que o real tivesse, na semana passada, o melhor desempenho entre as principais divisas do mundo. Ontem, impulsionado ainda pelo otimismo do investidor local com a perspectiva de retomada da agenda de reformas, o dólar caiu mais 0,92%, encerrando o dia a R$ 5,4476. No mês, a queda chega a 3,20%.

“É inegável que o principal fator que mantinha o dólar perto de R$ 5,80 era o fiscal”, diz Marco Maciel, sócio e economista da Kairós. “Mesmo com uma melhora contratada no balanço de pagamentos, que aponta para um câmbio de tendência a R$ 4,60, esse ruído trouxe muita volatilidade ao câmbio. Agora a tendência é ela baixar. Caso o restante de 2021 caminhe normalmente, acredito que os R$ 5,80 vistos podem ser o teto do ano”, acrescenta Maciel, que vê o dólar a R$ 5,30 em dezembro.

Sócio e gestor da Novus Capital, Luiz Eduardo Portella entende que a melhora do ativo pode ser intensificada por um fator técnico. Da mesma forma que, na entrada do ano, a onda azul nos EUA pegou muita gente no contrapé, apostando na valorização do real - uma situação que intensifica o movimento na direção contrária -, desta vez, o mercado está posicionado de forma oposta, o que pode beneficiar o real, diz. “Não sei se vai dar para fechar todo o gap com os pares emergentes, mas tem ainda muito prêmio de risco para ser retirado”, afirma ele, que voltou a adicionar posições otimistas em relação à moeda brasileira.

Nas contas de Portella, os estrangeiros iniciaram o ano comprados em US$ 25 bilhões, patamar que subiu para US$ 30 bilhões agora. Ao mesmo tempo, os fundos locais estão comprados em cerca de US$ 10 bilhões, de US$ 5 bilhões em março. “Se lá fora continuar bom, o estrangeiro e o local podem continuar reduzindo suas posições”, afirma Portella. “Perdendo alguns pontos gráficos importantes, como a média móvel de 200 dias, do qual estamos próximos, isso deve se intensificar.”

Quem também se mostra mais otimista com a perspectiva do real é o vice-chefe de pesquisa econômica para a América Latina do Scotiabank, Eduardo Suarez. “Uma das razões é o fato de que o BC está iniciando um ciclo de altas da Selic bem agressivo. Investidores que pensam em carry trade começam a olhar novamente para o Brasil”, diz. “Além disso, o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter perdido a companhia de Donald Trump cria uma expectativa de que suas políticas se tornarão mais previsíveis.”

Para o BTG Pactual, os eventos recentes recolocam o dólar na trajetória para encerrar 2021 em R$ 5,40, cenário base da instituição, ou até em R$ 5,20, seu cenário otimista. Entre os fatores que ajudam, está o bom momento das commodities e uma possível aceleração da vacinação. Esta contribuiria para reduzir os juros longos e, consequentemente, o diferencial de taxas de longo prazo entre Brasil e EUA. A redução do risco-país está diretamente ligada a esse diferencial, que “depende mais do comportamento da economia brasileira, uma vez que as taxas de juros americanas são relativamente estáveis”, diz o banco em relatório.

Dados do BC sugerem que a debandada do investidor estrangeiro também pode estar se revertendo, o que beneficia o câmbio. Em março, em meio às incertezas quanto ao Orçamento e à piora da pandemia, o investimento em carteira registrou saída líquida de US$ 2,610 bilhões. Já no acumulado de abril até o último dia 20, está negativo em apenas US$ 96 milhões.

“Março foi bastante atípico porque teve as crises fiscal e política”, nota Sergio Vale, economista da MB Associados, ressaltando que o segmento de ações já retornou ao positivo em abril.

Para Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, o fator fiscal pode manter o estrangeiro arisco, mas outros temas também jogam a favor de seu retorno ao Brasil. “É fato que o crescimento mundial e a força das commodities ajudam o Brasil. Na renda fixa, a recomposição da Selic também tende a ajudar moderadamente. Em suma, não creio que tais saídas sinalizem uma onda de fuga de recursos, pois há fatores que geram oportunidades”, diz.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino — De São Paulo, 27/04/2021