A pandemia gera incerteza sobre o cenário econômico, conforme a intensidade e duração da crise sanitária, diz Manoel Pires, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). “O risco do Brasil é que todo o resto do mundo consiga se vacinar mais rapidamente e se recuperar e nós ficarmos nos afogando”, diz na Live do Valor desta quinta-feira.

Segundo Pires, o viés para a variação do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 é de baixa em relação às projeções da virada do ano. Ainda que o crescimento apontado pelo mercado, de 3,7% aconteça, diz ele, é preciso qualificar essa variação.

"Crescer 3,7% parece muito para um país que caiu 4%, mas isso decorre de efeito estatístico, não é crescimento stricto sensu”, diz. Como o PIB é calculado pela média trimestral em relação à evolução do trimestre do ano anterior, explica, há um efeito base. “Esses 3,7% significam não crescer quase nada ao longo de 2021. Esse número não é surpreendente e tem viés de baixa em razão das circunstâncias econômicas que vivemos.”

Pires diz que a discussão no caso brasileiro para a recuperação econômica pós pandemia deve levar em consideração o curto e o logo prazo. “Há indícios, vendo o resto do mundo, que a recuperação é em V, com queda e recuperação rápida da atividade econômica. Tenho impressão de que há demanda reprimida grande por determinados tipos de serviços”, diz. Para ele, essa demanda reprimida deve dar um impulso natural para o pós pandemia, mas é preciso também discutir estratégias de crescimento longo prazo, o que tem sido um problema crônico no Brasil. “Desde a crise dos anos 80 temos crescimento baixo. Nos anos 2000 crescemos um pouco mais, mas desde a crise 2015 temos crescido muito pouco, numa média de 1%, 1,2% ao ano.”

É preciso, diz Pires, resolver a questão do crescimento e tratar bem as sequelas da pandemia. “Esse é um debate aberto no mundo inteiro. Há dívida privada elevada, que geralmente reduz investimentos. Ao mesmo tempo há endividamento público.”

A opção que vem sendo adotada, principalmente nos países desenvolvidos, diz, é de participação mais importante do setor público, que deverá se endividar uma pouco mais para facilitar o processo de desalavancagem de dívida do setor privado. Não conseguimos ter mesma capacidade de reação dos europeus e americanos, mas teremos que enfrentar essa discussão, ressalta. “Por enquanto ainda estamos discutindo como vacinar e resolver questões de curto prazo de orçamento para ter um enfrentamento da pandemia mais adequado, algo que ainda não está acontecendo.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Marta Watanabe, Valor — São Paulo, 08/04/2021