As restrições de funcionamento do varejo de materiais de construção, se mantidas, poderão resultar, neste ano, em queda da produção do setor, promovendo os mesmos efeitos de desorganização da cadeia e dificuldades de atendimento à demanda observados em 2020. A avaliação é de Antonio Serrano, presidente da Juntos Somos Mais, empresa da qual Votorantim Cimentos, Gerdau e Tigre são sócias. “Se as restrições permanecerem, haverá impacto enorme em todo o setor e nova desestruturação da cadeia”, afirma Serrano.

Em 2020, diante de forte queda da demanda entre a segunda quinzena de março e o fim de maio, as indústrias de materiais reduziram a produção. Com a retomada das encomendas a partir de junho, houve defasagem até que os níveis de produção fossem retomados em patamar suficiente para o abastecimento necessário. Os prazos de entrega se alargaram, e os preços dos produtos, influenciados também pelos aumentos de custos dos insumos, tiveram alta.

Dados preliminares de março indicam queda de 15% a 20% das vendas na comparação com a média mensal de janeiro e fevereiro. No primeiro bimestre, as vendas tinham crescido 20%, conforme medição a partir dos pontos do programa de fidelidade “Juntos Somos +”. Quando os dados de março forem fechados, a expectativa de crescimento nominal de 10% e real de 5%, traçada para este ano, poderá ser revista, segundo Serrano.

Levantamento realizado pela Juntos Somos Mais, entre 17 e 24 de março, com 700 proprietárias de lojas de materiais de construção apontou que 64% delas tinha algum tipo de restrição de funcionamento, seja de abertura ou de horário. No Sudeste, a fatia chegava a 79% e, no Estado de São Paulo, a praticamente 100%.

O executivo diz que, em outubro, 40% das indústrias tinha dificuldade relevante de abastecer a demanda. “Mas o setor se reorganizou e, agora, nenhuma indústria tem dificuldade significativa de atendimento”, compara. Ele diz estar preocupado de que a redução da demanda decorrente do fechamento de parte do varejo de construção mude a expectativa de crescimento do setor.

“As perspectivas ainda são boas, mas menos positivas”, afirma Serrano. Em março, 40% das entrevistadas disseram acreditar que teriam crescimento acima de 10% neste ano. O percentual que esperava essa expansão para 2021 era de 67% em dezembro. Segundo o executivo, por mais que o varejo de materiais tenha se preparado para atender a pedidos virtuais, o segmento ainda não “é tão online” quanto outros. “A venda nas lojas é consultiva”, acrescenta Serrano.

Ele disse ainda que o fechamento do varejo de materiais não contribui para o combate à pandemia de covid-19. “E como serão resolvidas necessidades de materiais de construção para emergências em casa, nos hospitais e em supermercados?”, questiona.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Chiara Quintão — De São Paulo, 07/04/2021