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O leilão de duas concessões de água e esgoto em Pernambuco, marcado para o dia 18 de dezembro, tem mobilizado diversos grupos do setor de saneamento e investidores interessados em entrar no mercado. Com investimentos somados de R$ 19 bilhões, os projetos têm sido estudados por Aegea, Equatorial, Sabesp, Acciona, Pátria, Vinci Partners, Opportunity, BRK Ambiental e Águas do Brasil, segundo fontes a par do tema, que falaram sob condição de anonimato.
Grupos financeiros como a Vinci e o Opportunity – este último, ainda sem ativos no setor – têm conversado com operadores em busca de uma parceria, ainda de acordo com as fontes. Os potenciais sócios seriam BRK ou Águas do Brasil, ambas empresas tradicionais no ramo, mas que hoje são vistas como pouco competitivas nas licitações.
Pessoas que acompanham o assunto dizem que a Sabesp tem analisado os ativos, porém, sua participação é vista como pouco provável no atual contexto, em que ainda há um desafio grande de obras a serem feitas em São Paulo. Além disso, há expectativa de outros leilões regionais de água e esgoto no Estado, que a empresa deve priorizar.
No mercado, os dois blocos que serão licitados são vistos como interessantes, embora o maior deles, que engloba a região metropolitana de Recife, seja o destaque. O lote da capital inclui 150 cidades, além de Fernando de Noronha, e prevê R$ 15,4 bilhões de investimento. Já o segundo bloco, do Sertão, reúne 24 cidades, com obras de R$ 2,9 bilhões.
Para uma fonte, este é o mais atrativo entre os contratos regionais da carteira que sobrou do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Além disso, trata-se do último grande projeto do ano.
Na licitação, o critério da concorrência será híbrido. Os grupos poderão oferecer um desconto de, no máximo, 5% sobre a tarifa cobrada em cada lote. Caso haja empate, poderão propor também um prêmio sobre o valor de outorga inicial, que será paga aos governos do Estado e municipais. No bloco da região metropolitana, o mínimo é de R$ 2,2 bilhões e, no lote Sertão, de R$ 87 milhões.
Apesar do forte interesse do mercado, fontes que acompanham de perto o projeto também apontam desafios e incertezas em torno dos contratos.
Uma preocupação é a disponibilidade de água no Estado. Pela estrutura dos contratos, a produção de água seguirá sob responsabilidade da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) na maioria das cidades operadas – ou seja, os grupos terão que comprar água da estatal para fazer a distribuição.
Esse modelo, já adotado em outros Estados, cria um problema, em especial no cenário de escassez hídrica, dizem fontes. Numa situação de falta de água, a concessionária não tem estímulos para fazer investimentos para ampliar a oferta hídrica – dado que a empresa privada ainda assim seguiria comprando a água da Compesa e teria que entregar os ativos à estatal. Uma fonte afirmou que a relação com a companhia estadual nesses casos é sempre um desafio, pela falta de clareza sobre a qualidade e o volume de água produzidos.
Outro ponto de atenção é uma possível Parceria Público-Privada (PPP) que está em estudo pela Compesa, para a construção de uma barragem no rio Ipojuca, que atenderá a região metropolitana de Recife. Fontes disseram que o projeto retira atratividade das concessões, porque cria uma confusão sobre as atribuições e insere desnecessariamente um terceiro ator na relação.
Segundo Almir Cirillo, secretário de Recursos e Saneamento de Pernambuco, o projeto da PPP provavelmente ficará para 2026, porque ainda está em fase inicial de consultas públicas.
Ele defende que o projeto não cria obstáculos às concessões e, pelo contrário, aumenta a atratividade, dado que amplia a disponibilidade hídrica na região metropolitana. “É parte do esforço do Estado de garantir a produção de água. Assim como estamos fazendo diversas novas obras, essa é uma delas”, afirmou. Cirillo também disse que toda a outorga que o governo estadual arrecadar no leilão será destinado a ampliar a oferta de água, e que não há preocupações quanto a esse ponto.
A expectativa, disse ele, é que a licitação tenha forte competição e resulte em ágio sobre os valores mínimos previstos de outorga.
Outro ponto de atenção em torno dos projetos é o real estado das estruturas que serão assumidas pelos concessionários, disse uma pessoa que estuda o projeto. A discrepância entre a situação prevista no edital e a realidade encontrada depois da assinatura tem sido motivo de discussões regulatórias nas concessões do setor, e o tema tem gerado preocupação nos leilões recentes.
Procurada, a Sabesp disse, em nota, que “tem como prioridade antecipar a universalização dos serviços de água e esgoto em São Paulo até 2029” e que “outras oportunidades serão avaliadas com cuidado, considerando alinhamento estratégico, sinergias operacionais, retorno e viabilidade de financiamento”. A Equatorial afirmou que “está sempre atento às oportunidades”. A Águas do Brasil disse que “está realizando visitas técnicas e aprofundando os estudos técnico-financeiros”. A BRK Ambiental não se manifestou. A Acciona disse que “está constantemente analisando oportunidades no setor de infraestrutura”. A Aegea, a Vinci Partners, o Opportunity e o Pátria não comentaram.
Fonte: Valor Econômico — Por Taís Hirata — De São Paulo, 03/11/2025