O que era um rio desaparecido na região central da capital paulista deverá se tornar um importante atrativo do futuro parque municipal do Bixiga, cujo córrego homônimo soterrado sob o bairro histórico do distrito da Bela Vista teve sua localização e profundidade confirmados por estudos contratados pelo IAB-SP (Instituto dos Arquitetos do Brasil) em São Paulo.
Com as informações precisas sobre o curso d’água, somada às manifestações populares a favor da sua reabertura, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) decidiu incorporar a demanda ao projeto da área verde.
A recuperação do córrego Bixiga será oficializada como diretriz do concurso público nacional que convidará arquitetos a projetarem o novo parque. A abertura da disputa será publicada no Diário Oficial da Cidade da próxima segunda-feira (26), segundo o IAB-SP, instituição contratada pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente da prefeitura para organizar a concorrência.
Com uma tecnologia conhecida pela sigla em inglês GPR (ground penetrating radar, ou radar de penetração de solo), técnicos descobriram que o córrego atravessa o terreno e corre paralelamente à rua Abolição, tendo como ponto de entrada o final da rua Japurá, atualmente percorrendo uma galeria de concreto com 1,2 m de diâmetro e em profundidade entre 1,5 m e 2 m, considerando o topo dessa mesma galeria.
A renaturalização do riacho era uma das bandeiras defendidas por grupos ligados a Zé Celso (1937-2023), diretor e criador do Teatro Oficina, que encampou uma disputa de quatro décadas pela criação do parque contra a vontade do empresário e apresentador Silvio Santos (1930-2024), dono do terreno.
“Havia uma tensão porque dependia da viabilidade técnica e se a prefeitura iria comprar essa questão que aparecia muito relacionada ao desejo do pessoal do teatro e do movimento pelo parque, mas quando a gente fez as oficinas participativas [para ouvir a sociedade], ficou muito evidente que essa também era a vontade da população”, afirma Danielle Santana, presidente do IAB-SP.
Concurso de arquitetura definirá projeto
As diretrizes para a elaboração das propostas —as bases do concurso— foram construídas a partir de estudos técnicos, consultas especializadas e do relatório das oficinas participativas realizadas com a população, segundo o IAB-SP.
Esse processo identificou tanto o desejo coletivo quanto a viabilidade técnica da renaturalização do curso-d’água, incorporando ao projeto princípios contemporâneos de adaptação climática, recuperação ambiental e valorização dos rios urbanos como infraestrutura essencial para o futuro das cidades.
Segundo o instituto, o parque municipal do Bixiga será o primeiro parque do centro expandido projetado por meio de concurso público e o primeiro a adotar a renaturalização de um córrego.
O concurso será realizado em duas fases, estrutura que permite uma avaliação técnica criteriosa, o aprofundamento das soluções selecionadas e a qualificação progressiva das propostas.
O período de inscrição e envio de propostas para a primeira fase vai de 27 de janeiro a 22 de março. Para a segunda, o recebimento de propostas ocorre entre 7 e 25 de abril. A divulgação do resultado está prevista para 4 de maio.
Na primeira fase, serão selecionadas cinco propostas, cujos proponentes receberão prêmio de R$ 18 mil cada e serão convidados a detalhar e aprimorar suas soluções para a fase dois.
Ao final da segunda etapa, as três melhores propostas serão classificadas em primeiro, segundo e terceiro lugares, com prêmios de R$ 130 mil, R$ 60 mil e R$ 40 mil, respectivamente. O autor da proposta vencedora será contratado para o desenvolvimento das etapas subsequentes do projeto.
Todas as informações necessárias para inscrição e participação estão disponíveis no site oficial: concursoparquedobixiga.org.br.
Podem participar arquitetas e arquitetos do Brasil e do exterior, com registro ativo e válido junto ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo.
Fonte: Folha de São Paulo – Por Clayton Castelani – São Paulo, 22/01/2026