Taxa de juros impacta construção no fim de 2025, mas setor deve seguir resiliente, dizem economistas

A queda de 2,3% da construção civil no último trimestre de 2025 em relação ao trimestre imediatamente anterior, segundos dados do PIB divulgados pelo IBGE, surpreendeu economistas e reduziu o crescimento do setor em 2025. A alta acumulada no ano passado ficou em 0,5%, mas a coordenadora dos índices de construção do FGV Ibre, Ana Maria Castelo, destaca que o segundo ano de crescimento do segmento traz boas notícias, apesar do impacto negativo da taxa de juros e da estagnação do consumo das famílias.

“A queda trimestral era esperada, mas veio muito forte. Esse número surpreendeu e deve gerar revisões paras as projeções deste ano”, comenta Castelo. “Mas não é terra arrasada. Precisamos olhar o PIB trimestral junto com outros indicadores”.

De acordo com a economista do FGV Ibre, outros dados sinalizam, por exemplo, que o consumo de cimento está em alta, o que indica que a atividade na construção continua crescendo no início de 2026. Além disso, os relatos de escassez de mão de obra demonstram que a construção não está em direção a um momento recessivo. “Pelo contrário, demonstra que está havendo atividade”.

Em relação à mão de obra, o presidente do Sinduscon-SP, Yorki Estefan, analisa que a queda no último trimestre do ano passado pode inclusive estar relacionada a um movimento cíclico de diminuição do número de trabalhadores no fim do ano e ocorre de forma mais intensa em um cenário de maior massa salarial. Ele destaca que a diminuição no ritmo de emprego do setor é comum entre novembro e janeiro porque os trabalhadores pedem demissão, mas as obras não param, o que resulta em queda da produção.

“No último trimestre, a gente teve uma diminuição do número de trabalhadores na construção civil. Isso muito porque eles tiveram um aumento substancial de rendimento durante o ano”, disse o Estefan, acrescentando que, nos últimos anos, tradicionalmente os trabalhadores voltam para seus Estados de origem na época das festas de fim de ano. “Isso acarreta, realmente, uma diminuição na produção. Neste ano, mais ainda por causa dos bons rendimentos que estão tendo”, disse.

Para 2026, Castelo aponta que programas como o Reforma Casa Brasil, do governo federal, tendem a manter o crescimento da construção civil. Ela observa que o desempenho negativo no fim de 2025 teve influência considerável da estagnação do consumo das famílias, o que impactou o segmento de obras residenciais. “Minha percepção é que a principal contribuição para esse resultado ruim veio das famílias e, na última parte de 2025, foram as empresas que sustentaram a atividade”, avalia a economista do FGV Ibre, acrescentando ainda que o setor deve ser favorecido por gastos públicos em obras de infraestrutura neste ano eleitoral.

No Sinduscon-SP, a perspectiva também é de que 2026 será bom para a construção. Yorki Stefan avalia que o programa Minha Casa, Minha Vida deve continuar em ritmo acelerado, enquanto as obras de médio padrão devem andar de lado, com crescimento moderado.

“A gente imagina que as famílias vão recuperar um pouco o poder de consumo, principalmente por causa da isenção do Imposto de Renda, e isso deve dar um fôlego maior ao consumo das famílias. A gente acredita que vai haver aumento do PIB da construção civil em 2026, principalmente puxado pelo consumo das famílias”, destacou Stefan.

Já a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) lamentou que o crescimento anual de 2025 ficou apenas em 0,5%, abaixo do 1,3% que a entidade projetava. “A quebra de expectativa pode ser explicada por uma política monetária altamente contracionista, com uma taxa básica de juros nos patamares mais altos dos últimos 20 anos”, destacou a entidade em nota.

Por outro lado, a Cbic ressaltou que os dados do PIB ainda demonstram a capacidade de investimento e resiliência do setor. “As empresas continuaram contratando e investindo. Em 2026, para continuar avançando o setor espera mais estímulo ao investimento. Seguimos defendendo um ambiente de crédito mais favorável para garantir continuidade de crescimento da construção”.

Fonte: Valor Econômico — Por Rafael Vazquez e Grace Vasconcelos, Valor — São Paulo, 03/03/2026

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