Os veículos aéreos não-tripulados (VANTs), mais conhecidos como drones, têm se consolidado como uma importante ferramenta competitiva em diversos setores da economia. Em outubro havia 30,8 mil drones de uso profissional registrados no Brasil, 228% a mais que em 2017, conforme a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Nos últimos três anos, o número de empresas proprietárias desses equipamentos quase triplicou, passando de 1,7 mil para mais de 5 mil.

As aplicações são diversificadas. Um levantamento da MundoGeo, organizadora do Drone Show, maior evento da América Latina para drones corporativos, indica que os principais usos no Brasil são em mapeamento e topografia, agronegócio, meio ambiente, inspeções de obras, gestão de rodovias, mineração e indústria petrolífera. Especialistas preveem que a chegada da rede 5G vai revolucionar a capacidade do equipamento, ao permitir maior controle do espaço aéreo. Uma das inovações esperadas para um futuro próximo será o drone autônomo.

Em dezembro será inaugurada em Juiz de Fora (MG) uma operação inédita de transporte aéreo de sangue e derivados do hemocentro da cidade até o Hospital Albert Sabin. O tempo entre o envio da amostra e a entrega do insumo, hoje de 50 minutos por motocicleta, passará a apenas 15 minutos, informa o fundador da transportadora Tá na Escuta, Fabiano Nejaim. “Pacientes em estado crítico podem precisar de transfusão rápida e, à medida que encurtamos esse tempo, salvamos vidas”, diz o diretor do hospital, Célio Chagas.

A R-Crio, empresa de criogenia de Campinas (SP), planeja usar em breve o serviço da Tá na Escuta para transportar células-tronco, utilizadas em medicina regenerativa. “Na nossa área a logística é extremamente importante, pois o material precisa chegar ao laboratório em até 48 horas”, explica o diretor-executivo Walker Jeveaux. O objetivo é fazer o transporte entre o aeroporto e a sede da companhia, em um trajeto de aproximadamente 30 km, que pode se transformar em um recorde mundial de distância na atividade.

A Speedbird é uma das primeiras empresas do mundo autorizadas a fazer testes para o transporte de alimentos por drone. Em dezembro começa a entrega de refeições no Shopping Iguatemi de Campinas (SP). A aeronave sairá do terceiro andar, próximo à praça de alimentação, e irá até um contêiner da parceira iFood no outro lado do prédio. “Vamos economizar 12 a 14 minutos por entrega”, diz o cofundador da Speedbird, Manoel Coelho.

Desde 2019 a Veracel Celulose usa VANTs no controle biológico de lagartas desfolhadoras em suas plantações de eucalipto no Sul da Bahia. A empresa cria em laboratório dois insetos que são inimigos naturais da praga e os libera sobre as áreas afetadas. “Conseguimos interromper o ciclo da lagarta em um tempo 12 vezes mais rápido que antes”, conta o analista de sanidade florestal Marlon Moreira Neto.

A BP Bunge Bioenergia utiliza VANTs no controle biológico de lavouras de cana em suas 11 usinas em cinco Estados. Larvas da vespa Cotesia são espalhadas sobre os canaviais afetados pela broca-da-cana, reduzindo de 15% a 20% o custo do manejo. “Outro benefício é que os drones usam GPS de alta precisão para produzir uma mapa da área, que depois é colocado em tratores com piloto automático”, diz o diretor agrícola Rogério Soares.

Fundada em 2014 em Florianópolis, a Hórus Aeronaves adota o modelo de negócio DaaS, sigla em inglês para drone como serviço. “É como um Uber de drone”, compara o CEO Fabrício Hertz. “Conectamos agricultores e corporações a uma rede de operadores aptos à prestação de serviços de mapeamento, distribuindo as demandas por área geográfica.” Por meio dos algoritmos da empresa, os clientes obtêm informações para tomar decisões estratégicas.

Prestadores de serviços como a Sensix, de Uberlândia (MG), ganham espaço. “No início nós fabricávamos equipamento próprio, mas vimos que os drones comerciais são commodities, com 90% do mercado concentrado na China”, conta o diretor executivo Carlos Ribeiro. “Nosso diferencial está na tecnologia de inteligência artificial para tornar os dados aplicáveis.” A plataforma digital da empresa gera instruções que permitem economia de 30% a 80% nos insumos de pulverização de lavouras de algodão, soja, milho e cana.

A Altamap, de Ribeirão Preto (SP), é outra agtech que utiliza drones de terceiros para oferecer mapas e relatórios de uso na agricultura de precisão. “Queremos mostrar que essa tecnologia é acessível também ao pequeno e médio produtor”, diz um dos sócios, Gustavo Martins.


Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Dauro Veras - Para o Valor, de Florianópolis, 25/11/2020