O papel da tecnologia nos negócios das pequenas empresas é vital, mas são muitos os gargalos que as impedem de avançar nessa direção, a começar pelar falta de familiaridade de empreendedores com as ferramentas ou soluções que poderiam auxiliá-los em suas tarefas. Pesquisa do Sebrae, por exemplo, identificou que, indagadas sobre como faziam a gestão financeira, 43% das empresas ouvidas responderam “em um caderno ou em folha de papel”. Outros 8% não faziam ou nem souberam responder. Apenas 27% disseram usar planilha Excel.

Para Wilson Poit, diretor-superintendente do Sebrae-SP, o maior gargalo para adoção de tecnologia ainda é cultural. “Mesmo quando eles reconhecem a necessidade de adotar novas ferramentas, mantêm aquela ideia de que o custo é inviável, de que ele não sabem muito bem quem vai cuidar disso”, diz. Mas há também o fator desconhecimento. Arthur Igreja, especialista em tecnologia, segurança digital, inovação e transformação digital, conta que muitos empresários não têm conhecimento sobre como e por que aplicar tecnologias já disponíveis. “É aquela história do ‘sempre fizemos desse jeito’, ou ‘a vida tá corrida’ ou ainda aquela de ‘tudo está muito difícil”, diz ele. Segundo Poit, o preço é outro fator inibidor, embora existam soluções baratas e até gratuitas para esse segmento. “A mão de obra também não é barata, mas, com conhecimento, é possível encontrar alternativas. A verdade é que, para empresas nascidas há um ou dois anos, não é possível imaginar uma gestão eficiente sem um sistema integrado na internet. É um caminho sem volta”, diz o executivo do Sebrae-SP.

Arthur Igreja reconhece limitações orçamentárias que impedem a adoção de tecnologia, mas diz que as empresas precisam sair da zona de conforto. Segundo ele, para uma empresa minimamente organizada, o ponto de partida são os softwares corporativos ERP (Enterprise Resource Planning) e/ou o CRM (Customer Relationship Management). Este último considerado essencial para cuidar da carteira de clientes (atuais e potenciais).

Ferramentas de gestão financeira, de vendas, contábil e canais de acesso a crédito mais eficientes também são importantes, de acordo com Bruno Rezende, CEO da 4intelligence, empresa de tecnologia que desenvolve soluções baseadas em análise de dados, algoritmos e inteligência artificial. Segundo ele, apesar da baixa maturidade tecnológica de muitas empresas, o ritmo de transformação impressiona. “Isso se deve tanto à necessidade de inovar para não quebrar quanto à oferta cada vez maior de ferramentas de gestão de baixo custo ou até gratuitas.”

Para ele, depois da primeira onda de transformação, com ferramentas mais voltadas a controle e gerenciamento, as pequenas empresas estarão aptas a consumir e se beneficiar de ferramentas de inteligência de negócios, voltadas, por exemplo, para previsão de demanda, otimização de preços e inteligência geográfica, entre outros. Segundo Rezende, são essas as fronteiras tecnológicas que grandes corporação estão explorando hoje. “Como a adesão é cada vez mais simples e barata, o gap competitivo entre quem adota e quem não adota vai aumentar demais dentro do próprio mercado de pequenas e médias empresas, até se tornar insustentável para empresas que resistirem à transformação”, diz.

Outra pesquisa, sobre o impacto da Covid-19 nos pequenos negócios, realizada no período da pandemia, o Sebrae identificou que a inovação é de vital importância para a sobrevivência do negócio, e isso inclui a adoção de ferramentas de TI e presença digital. “Os donos de pequenos negócios que desenvolveram práticas inovadoras tiveram melhores resultados na recuperação do faturamento”, diz Poit.


Fonte: Valor Econômico - Suplementos, por Vladimir Goitia - Para o Valor, de São Paulo, 25/11/2020