O ministro da Economia, Paulo Guedes, prometeu novas reformas econômicas para logo após as eleições municipais e disse que ainda não se pode cravar uma segunda onda de covid-19 no país. Em uma maratona de eventos públicos, ele disse que a política econômica vai “partir para o ataque” no ano que vem, avançando nas privatizações, na abertura de mercado e na reindustrialização do país e que, pelo governo, o auxílio emergencial será extinto no fim do ano.

Em discurso no seminário “Visão do Saneamento - Brasil e Rio de Janeiro”, organizado pelo jornal “O Globo” e pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Guedes citou as reformas administrativa e tributária, além das novas regulamentações para o gás natural e a cabotagem. Ele afirmou que o governo tem sim “uma pauta com baixo custo político e alto retorno social” para este fim de ano e o início de 2021.

Por duas vezes em seu discurso, Guedes se mostrou cético em relação a uma segunda onda da pandemia de covid-19 e a eventual novo fechamento da economia. “Nós tínhamos 1.300 mortes por dia e agora [esse número] desceu. Alguns dizem que a doença já está aqui. Vamos observar, isso não é um fato. A doença também tem características sazonais.”

O ministro reconheceu que o governo do presidente Jair Bolsonaro cometeu erros na seara econômica em seus dois primeiros anos. Seriam os casos dos programas de expansão de crédito e do programa de privatizações que, em suas palavras, não avançou, mas continua sendo uma prioridade do Planalto. “As narrativas falsas são militantes, de quem faz campanha desde o início do governo. Mas tivemos erros, temos que admitir. O programa de crédito demorou a funcionar, mas funcionou depois. Nosso programa de privatizações não andou”, disse.

Mas o ministro afirmou que, mesmo assim, a economia “está voltando com força”, ao contrário do que diziam as expectativas iniciais de economistas nacionais e internacionais de que o Produto Interno Bruto (PIB) poderia cair até 15% em 2020. Ele disse que a economia brasileira se recupera em “V”, com recuperação do emprego.

Segundo Guedes, a partir de julho, foram criados 500 mil novos postos de trabalho; em agosto, 250 mil; e, em setembro, 250 mil. Os dados de outubro ainda não foram divulgados, mas, ele disse esperar uma “desaceleração natural” no indicador. “Temos a possibilidade de chegar ao fim do ano perdendo menos empregos do que perdemos na recessão auto-imposta em 2015 e em 2016. A redução de empregos ficará entre um quinto e um terço da quantidade perdida nas crises anteriores”, disse ele.

Guedes disse ainda que, ao não conceder aumentos ao funcionalismo por três anos, o governo já iniciou uma reforma administrativa antes mesmo de o projeto tramitar no Congresso. “Estamos numa guerra, não podemos dar as medalhas no meio da guerra. Quando acabar a guerra a gente dá os aumentos. Eu acredito na democracia brasileira e ela funcionou bem para enfrentar a maior crise que o Brasil já viu.”

Sobre esforços ligados a desvincular o orçamento, o ministro repetiu que o governo quer devolver à classe política o comando sobre os recursos e que, neste ponto, 2020 foi “um ano exemplar”. “Como a população estaria protegida, dando 2% de correção inflacionária ou se reunindo para resolver a PEC do orçamento de guerra, como foi feito? ”, questionou.

Já em evento promovido pela International Chamber of Commerce (ICC) Brazil, Guedes disse que o plano é avançar sobre o mercado asiático através do Oriente Médio e colocar a Índia no mesmo patamar que a China. Na indústria, o plano é aprovar os novos marcos do gás natural e da cabotagem, que permitirão a reindustrialização na costa brasileira.

O ministro citou a conversão de minério de ferro em “hot briquetted iron” (HBI), três vezes mais valioso do que o minério, para ser exportado para a Europa. O Brasil, porém, enfrenta dificuldades com o mercado europeu por causa da questão ambiental. Como mostrou o Valor em sua edição de ontem, a Alemanha ameaça barrar a entrada de produtos tropicais que tenham conexão com o desmatamento.

“Tem uma guerra que envolve o meio ambiente, uma guerra que envolve protecionismo disfarçado de práticas fitossanitárias”, comentou o ministro. Com isso, países ameaçam não implementar o acordo Mercosul-União Europeia. “Vamos ver se os parlamentos ratificam ou não”, disse. Por outro lado, o mercado brasileiro será aberto à competição. O estratégia do governo, disse o ministro, era fazer um corte gradual nas tarifas do Imposto de Importação (II), mas, assim como aconteceu com as privatizações, foi uma “falha nossa”.

Ele explicou que isso ocorreu porque a reforma tributária, essencial para dar às empresas brasileiras condições de competir com as internacionais, não andou. Além disso, como o Brasil havia fechado acordos comerciais importantes, como da União Europeia e os do Mercosul, a redução tarifária não pareceu tão fundamental.

Guedes disse que muito das reformas dependem do timing político, assim como as privatizações que ele prometeu - Eletrobras, Correios, Porto de Santos e PPSA - e não foram realizadas. Ele repetiu que há um acordo de centro-esquerda que bloqueia as privatizações, mas os partidos de centro-esquerda saíram derrotados nas eleições municipais, em declarações em evento promovido pela Empiricus e pela Vitreo.

“Quem subiu foi a centro-direita”, frisou, acrescentando que isso posta um apoio da população a pauta liberal de privatizar, abrir a economia e simplificar e não aumentar impostos. “Confio muito que as privatizações serão aceleradas no ano que vem”, disse ele. “Nós vamos trabalhar com os eixos políticos para acelerar os projetos.” Além disso, Guedes disse estar otimista com a aprovação até o fim do ano de temas de consenso, citando a Lei de Falências.

Guedes disse ainda no evento que segunda onda do coronavírus é uma narrativa política, assim como a ideia que o governo não tem projeto e está parado “Não podemos fabricar falsificação da realidade”, disse. Ele admitiu que o problema da doença ainda não está resolvido, mas classificou como “precipitação” a admissão de uma segunda onda e a prorrogação do auxílio. “Não há evidencia empírica para puxar esse gatilho”, afirmou, ressaltando que o governo saberá reagir se houver a segunda onda.

Sobre os vencimentos de dívida no primeiro quadrimestre de 2021, da ordem de R$ 600 bilhões, Guedes afirmou que o país não está em situação dramática. Para ele, a inclinação da curva de juros de longo prazo é natural devido as incertezas quanto a realização das reformas. “O futuro depende das reformas, se forem feitas, desce de novo. Se não continua, aquela ameaça”, disse. “Nós estamos tomando nossos cuidados.”

O ministro afirmou que praticamente a metade do valor dos vencimentos já está garantida, citando a transferência de R$ 200 bilhões do lucro do Banco Central para o Tesouro, e R$ 100 bilhões da alavancagem dos bancos públicos.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Gabriel Vasconcelos, Juliana Schincariol, Lu Aiko Otta e Edna Simão - do Rio e de Brasília, 24/11/2020