Assim como sinalizado pelas prévias operacionais, as incorporadoras com foco nos padrões médio e de alta renda apresentaram resultados fortes, no terceiro trimestre, com crescimento de receita, margem e, consequentemente, melhora da última linha do balanço. Empresas aproveitaram o período para lançar projetos e atender à demanda que tinha sido represada nos primeiros meses da pandemia de covid-19. A continuidade do bom desempenho é esperada para o quarto trimestre.

No segmento de baixa renda, porém, não se verificou um cenário tão positivo. A receita também teve expansão, mas a luz amarela se acendeu, com preocupações da pressão do aumento dos custos de matérias-primas sobre as margens. Em imóveis de maior valor tem sido possível repassar para os preços altas nos custos, o que se mostra mais difícil nas unidades populares devido ao teto dos valores do programa habitacional Casa Verde e Amarela.

Cyrela, EZTec, Even, Mitre e Moura Dubeux se destacaram entre as incorporadoras de médio e alto padrão, no trimestre, na avaliação de analistas. O momento favorável vivido pelo setor trouxe de volta divulgações de metas do Valor Geral de Vendas (VGV) a ser lançado. EZTec puxou a fila e foi seguida por outras empresas como Trisul e Tecnisa no anúncio de projeções para o biênio 2020-2021, indicando crescimento acentuado.

De julho a setembro, as vendas de lançamentos e de estoques chamaram a atenção, estimuladas pela demanda represada nos primeiros meses da pandemia e pelos juros baixos. O aquecimento dos negócios de unidades na planta estimulam incorporadoras a apresentar novos projetos. Por outro lado, a venda de estoques significa aumento relevante de receita, pois o indicador é contabilizado proporcionalmente ao avanço das obras.

As incorporadoras de média e alta renda têm conseguido boa rentabilidade na comercialização das unidades em estoque, seja pela redução de descontos que vinham sendo praticados, seja por aumento de preços para recompor custos. Lançamentos também têm apresentado boas margens futuras.

Em relatório sobre os resultados da Cyrela, Even, EZTec e Moura Dubeux, os analistas do Credit Suisse Daniel Gasparete, Pedro Hajnal e Vanessa Quiroga ressaltam que “as empresas já começaram a colher os frutos deste bom momento para o setor”. Já Alex Ferraz, analista de mercado imobiliário do Itaú BBA, destaca que o terceiro trimestre “premiou quem tomou risco de lançamentos, caso de Cyrela, Even e Mitre”.

Mais tradicional incorporadora brasileira, a Cyrela teve recorde trimestral de lucro líquido, de R$ 1,4 bilhão de julho a setembro. O desempenho foi impulsionado pelas ofertas iniciais de ações (IPOs) das subsidiárias Lavvi, Plano & Plano e Cury, mas a companhia também apresentou melhora de receita e margem.

A EZTec aumentou seu lucro líquido em 96%, para R$ 119,8 milhões. Desconsiderando-se a venda do EZTowers, o lucro trimestral da companhia fundada por Ernesto Zarzur foi recorde desde 2015. O lucro da Even cresceu 147%, para R$ 40,8 milhões. A Moura Dubeux reverteu o prejuízo de R$ 19,9 milhões do terceiro trimestre de 2019 e obteve lucro de R$ 13,1 milhões. A Mitre registrou lucro atribuído aos controladores de R$ 22,54 milhões no terceiro trimestre, com alta de 305% na comparação anual.

Em conjunto, as incorporadoras de capital aberto lançaram, de julho a setembro, R$ 8,43 bilhões, com crescimento de 31,4% na comparação anual. As vendas líquidas tiveram expansão de 47%, para R$ 7,82 bilhões. O levantamento feito pelo Valor considera a parte própria das companhias nos empreendimentos e inclui Cury, Cyrela, Direcional, Even, EZTec, Gafisa, Helbor, Lavvi, Melnick Even, Mitre, Moura Dubeux, MRV, PDG Realty, Plano & Plano, RNI Negócios Imobiliários, Rossi Residencial, Tecnisa, Tenda, Trisul e Viver.

As empresas mais concentradas no programa habitacional não tinham suspendido lançamentos nos primeiros meses da pandemia, mas aceleraram o processo de apresentação de projetos ao mercado no terceiro trimestre. O bom desempenho operacional, antecipado na divulgação das prévias, se refletiu na receita, porém há preocupação com os impactos nas margens frutos dos aumentos de despesas com matérias-primas.

“As obras passam a custar mais e podem atrasar devido aos prazos mais longos para recebimento dos insumos”, diz um analista que pediu para que seu nome não fosse citado. Ele ressalta que as incorporadoras de maior porte com foco na baixa renda têm ganhado participação de mercado.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Chiara Quintão - de São Paulo, 19/11/2020