A Cyrela demonstrou, no balanço do terceiro trimestre, que ainda sofre impactos negativos da fase de crescimento acelerado e expansão geográfica do setor de incorporação. Vícios de construção em três condomínios desenvolvidos integralmente pela incorporadora em São Luís (MA) acabaram por resultar em impacto negativo de R$ 94 milhões - R$ 32 milhões já gastos e provisão de R$ 62 milhões a ser desembolsado até abril de 2019.

Em teleconferência com analistas e investidores, Raphael Horn, copresidente da Cyrela, afirmou que a expansão acelerada "deixou sequelas" e que o resultado contábil da companhia - R$ 121 milhões de prejuízo no trimestre - foi "um desastre".

Em agosto do ano passado, a Cyrela reportou seu primeiro prejuízo trimestral - no valor de R$ 141 milhões -, resultante, principalmente, do impacto negativo de R$ 122 milhões referente ao Grand Parc Residential Resort, empreendimento em que ocorreu acidente na área de lazer, em julho de 2016, em Vitória (ES). Esse projeto havia sido desenvolvido em parceria com a Incortel Incorporações e Construções.

"Com magnitude expressiva, já pagamos dois pecados. O valor de R$ 200 milhões em dois eventos é cavalar", afirmou Horn. O copresidente disse acreditar que não haja mais problemas dessa grandeza. "Mas não temos condição de garantir que não vão acontecer problemas que acarretem [provisões] em nenhum prédio", ressaltou.

Horn afirmou que, se a empresa erra, paga, mas disse que não informaria todos os detalhes das despesas reparatórias do Nordeste por haver clientes envolvidos. "Não há nenhum risco de segurança ou habitabilidade", disse o diretor financeiro da Cyrela, Miguel Mickelberg.

As despesas reparatórias se referem a três condomínios - Jardim de Provence, Jardim de Toscana e Pleno Residencial. Segundo informações do site do Ministério Público do Maranhão (MPMA), os vícios de construção abrangem sistemas de proteção contra descarga elétrica e combate a incêndio, abastecimento de água, fornecimento de gás, instalações elétricas, rachaduras e infiltrações em pilares e paredes do condomínio.

Em março, foi fechado acordo entre a Cyrela, a Promotoria de Justiça do Maranhão e moradores dos condomínios Jardim de Toscana e Jardim de Provence para melhorias técnicas nos conjuntos residenciais. As ações civis públicas referentes a esses empreendimentos foram encerradas. O Tribunal de Justiça do Maranhão homologou o acordo em 2 de abril de 2018.

O valor definido para a evacuação dos 672 apartamentos do Jardim de Provence e do Jardim de Toscana chegou a R$ 8 milhões, incluindo custeio de três meses de aluguel, despesas com mudança e custos referentes à interrupção do fornecimento de gás, de acordo com o MPMA. Foi previsto que o retorno dos moradores ocorreria "depois da eliminação dos riscos à habitabilidade".

Segundo a Cyrela, a execução dos trabalhos definidos em conjunto com a perícia técnica de especialistas indicados pelo MP está em fase final, e as intervenções são acompanhadas pelos síndicos dos empreendimentos. "A  Cyrela reitera que tem dado todo o suporte aos moradores durante o período de obras", disse a incorporadora em nota.

Os moradores ainda não retornaram aos condomínios Toscana - lançado em julho 2010 e entregue em setembro de 2014 - e Provence - lançado em junho 2010 e entregue em fevereiro de 2014. A Cyrela informou que aguarda aprovação dos órgãos públicos para as obras do Toscana, já executadas, para liberar a volta dos moradores. O Provence ainda está em obras que, quando encerradas, também serão submetidas aos órgãos públicos.

Em relação ao condomínio Pleno Residencial, cujo abastecimento de gás foi interditado pelo Corpo de Bombeiros em 16 de março, segundo o MPMA, foi fechado acordo extrajudicial em que a Cyrela/ Living assumiu o compromisso de "realizar as intervenções de reparo, manutenção e restabelecimento do sistema de distribuição de GLP, com a edificação habitada".

Na sexta-feira, o copresidente da Cyrela afirmou estar animado com o setor e com o país em 2019. "Vamos torcer para o Brasil dar certo para que o setor tenha um pouco mais de alegria", disse. Em relação à vitória de Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições para a presidência da República, Horn afirmou
que "ganhou o lado que o mercado queria".

Na avaliação do copresidente da Cyrela, a reversão da curva de queda do mercado imobiliário dos últimos anos está começando. "É possível que o mercado tenha uma inflexão daqui para frente", disse Horn. Segundo ele, a companhia terá o último trimestre "forte em lançamentos" e o total lançado neste ano vai superar o de 2017. A tendência é de crescimento do Valor Geral de Vendas (VGV) de lançamentos em 2019.

Fonte: Valor - Empresas, por Chiara Quintão, 12/11/2018