A confiança do investidor na definição da disputa eleitoral a favor do candidato que considera mais alinhado à sua visão econômica tem direcionado uma ampla revisão das apostas para o mercado de câmbio. Após um longo período de apreensão com a corrida presidencial, o dólar vai se firmando perto de R$ 3,75, e analistas começam a baixar suas estimativas para a cotação da moeda nos próximos meses.

O otimismo no mercado é tamanho que alguns especialistas não descartam que a moeda atinja R$ 3,50 logo após o pleito. A sustentabilidade desse nível, entretanto, é uma questão mais delicada, já que depende de compromisso e da capacidade de execução das esperadas reformas estruturais.

Ontem, o mercado brasileiro retomou a dinâmica favorável à queda do prêmio de risco no câmbio. Depois de duas sessões consecutivas de alta, o dólar voltou a cair e fechou em firme baixa de 1,25%, a R$ 3,7312, reforçando o bom humor que tem prevalecido em outubro. A moeda americana recua 7,59% no acumulado do mês - uma das baixas mais acentuadas ante as principais divisas globais.

O entusiasmo dos investidores tem sido reiterado a cada pesquisa de intenção de votos para a corrida presidencial. Pela segunda semana consecutiva, os analistas baixaram suas projeções para o dólar no Boletim Focus. A mediana das estimativas caiu para R$ 3,81 no fim deste ano, após bater a máxima de R$ 3,90 em setembro.

Principal aposta do mercado, o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, tem mantido uma ampla vantagem sobre seu adversário no segundo turno, o petista Fernando Haddad. Os últimos números mostram Bolsonaro com 59% do apoio do eleitorado, enquanto Haddad fica com 41%, de acordo com sondagem do Ibope, divulgada ontem após o fechamento dos mercados.

Dado o grande entusiasmo que a candidatura de Bolsonaro gerou no mercado, o dólar pode cair até R$ 3,50, talvez num movimento pontual, após a eleição no Brasil, na avaliação do economista-chefe do ING para a América Latina, Gustavo Rangel. "Embora uma vitória de Bolsonaro tenha se tornado o cenário-base para a maioria dos investidores, seguimos estimando que sua eventual vitória, se confirmada, estenda a tendência de valorização observada nos ativos brasileiros nas últimas semanas", diz em relatório.

O recuo adicional da moeda, entretanto, vai depender do comprometimento e da capacidade do próximo governo em avançar com medidas mais estruturais de ajuste de contas públicas. Por ser uma questão mais delicada, essa é uma aposta que pode levar mais tempo. Por ora, as operações de mercado parece estar muito mais concentradas em dinheiro de curto prazo, de caráter especulativo, do que posições mais estruturadas.

Por isso, o economista do ING pondera que o nível de R$ 3,70 está mais próximo do "valor justo", dadas as incertezas quanto à capacidade da nova administração de entregar o "tão necessário" ajuste fiscal no ano que vem. Inclusive, dúvidas relacionadas à capacidade da próxima administração de aprovar suas medidas econômicas no Congresso devem retornar gradualmente. A leitura é a de que o dólar deve mostrar "um caminho volátil" no ano que vem, quando poderia testar o nível de R$ 4 novamente.

O economista-chefe do Santander Brasil, Maurício Molon, reconhece em relatório que, neste momento, os riscos para o seu cenário de câmbio estão inclinados para o lado otimista, o que pode se traduzir num potencial de queda do prêmio de risco e valorização do real. O banco trabalha com a estimativa de que o dólar estará em R$ 3,80 no fim do ano. Mas, se o novo presidente for capaz de restaurar a credibilidade na reforma fiscal, a taxa de câmbio pode terminar o ano em R$ 3,50.

Os juros futuros também têm espaço para queda, mesmo com o rali do mercado brasileiro nos últimos dias. Ontem, os vértices intermediários e longos foram os que mais recuaram na sessão, ajudados pela queda global do dólar. O DI janeiro de 2021, por exemplo, passou de 8,73% para 8,54% e o DI janeiro de 2025 foi de 10,77% para 10,41%.

Os especialistas do Nomura calculam que ainda há espaço para retirada do prêmio de risco. Nos vencimentos mais curtos, as taxas carregam aproximadamente 130 pontos-base de prêmio de risco, enquanto os juros mais longos trazem aproximadamente 220 pontos-base.

"Enquanto no curto prazo os movimentos de redução de prêmio são baseados na baixa probabilidade de uma vitória da esquerda [na eleição], uma redução continuada em prazos mais longos deve ser direcionada por uma política econômica de privatização e perspectivas para as reformas", escrevem, em nota, os especialistas Mario Castro, David Wagner e João Pedro Ribeiro.


Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata e Daniela Meibak , 16/10/2018