À frente da Prefeitura de São Paulo desde abril de 2018, o tucano Bruno Covas ouve com frequência a crítica --inclusive de correligionários-- de que aparece pouco e de que isso dificulta a criação de uma imagem pública para a gestão. Agora, a um ano das eleições municipais e com os cofres da prefeitura abastecidos, o neto do governador Mario Covas (1930-2001) entrará em campo.

A máquina pública, importante arma eleitoral, foi azeitada para render frutos a partir de agora. Em uma cidade que não gosta de reeleger prefeitos, o que surge no horizonte como possível obstáculo para o tucano é a dificuldade de transformar, em pouco tempo, o dinheiro guardado no porquinho em investimentos.

Nos próximos dois meses, Covas vai inaugurar cinco Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), dois CEUs, quatro piscinões e a canalização de três córregos. No primeiro semestre do ano que vem, obras como a reforma do vale do Anhangabaú e a construção do parque Augusta deverão ser entregues pelo prefeito.

A pujança financeira da atual gestão foi criada a partir de estratégia que conjugou cortes de gastos e estratégias para aumento de receita, como a reforma da previdência, as privatizações e as concessões.

Ele vai encarar a reta final antes das eleições em uma situação financeira bem melhor do que a de Fernando Haddad (PT) em 2016, por exemplo. Diante da crise, o petista acabou tendo que cancelar serviços de manutenção e paralisar obras iniciadas. Algumas delas sobraram para a gestão seguinte e deverão ser inauguradas por Covas.

Apesar do estoque de fitas de inauguração para cortar, Covas apostará mesmo na zeladoria. A área é problemática até quando se tem dinheiro, uma vez que há muitos contratos envolvidos e trâmites burocráticos necessários. Há sempre o risco de não se conseguir gastar o que se tem e, como se diz nos jogos de baralho, morrer com as cartas na mão.

Por outro lado, dinheiro não faltará. Covas promete reservar R$ 3 bilhões para a zeladoria, o dobro de 2019. O tucano diz que irá sextuplicar o valor gasto em anos anteriores.

Dentro dessa área, o destaque será o recapeamento de vias (R$ 1,4 bilhão) e a reforma e acessibilidade em passeios públicos (R$ 627 milhões). Na limpeza urbana, serão aplicados R$ 873 milhões.

A atual gestão diz ter em caixa hoje R$ 12,32 bilhões --R$ 2 bilhões a mais do que havia no mesmo período do ano passado. Embora haja críticas de exagero na estimativa, o orçamento previsto para o ano eleitoral será de R$ 68,9 bilhões, o que significa R$ 6 bilhões a mais do que Haddad previu gastar em seu último ano de governo.

Os números confortáveis chegaram após uma série arrochos, incluindo na área social. No início do ano, por exemplo, foram congelados R$ 240 milhões da Assistência Social.

Essa situação fez com que o então secretário de Assistência Social, José Castro, entregasse o cargo, argumentando que a precarização dos serviços seria inevitável. Em dois anos, a gestão tucana trocou cinco vezes o titular da pasta de Assistência Social.

A gestão também limitou a quantidade de viagens de ônibus usando o vale-transporte, o que gerou críticas na periferia. Outro ponto delicado, que envolveu diminuição de custos, foi a mudança no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

Em março, a administração municipal anunciou uma reorganização do Samu com a proposta de mudar rotas, reduzir bases e cortar gastos. A proposta foi recebida com protestos dos servidores da área médica. Em junho, o tempo de espera para os atendimentos de urgência aumentou.

A equipe financeira de Covas também conseguiu engordar as fontes de receita com a reforma da previdência e a desestatização de bens públicos.

Com a reforma da previdência municipal, que aumentou a alíquota de contribuição de 11% para 14% para os servidores, a gestão Covas espera ter uma economia de R$ 406 milhões apenas em 2019.

No caso das privatizações e concessões, apenas o Pacaembu foi passado para a iniciativa privada entre os equipamentos públicos de primeira grandeza. O contrato foi assinado em setembro e a prefeitura já recebeu R$ 79,22 milhões do total da outorga fixa de R$ 115 milhões.

Outros projetos de desestatização estão avançados e podem render mais recursos, como a concessão do serviço de Zona Azul (que, segundo os cálculos oficiais, renderia até R$ 1,3 bilhão para a prefeitura ao longo de 15 anos).


Fonte: Folha de São Paulo - Mercado, por Artur Rodrigues e Guilherme Seto - de São Paulo, 05/10/2019