minério de ferro deve ser o primeiro item no qual o Brasil pode sentir os efeitos da crise da chinesa Evergrande sobre as exportações, segundo apontam analistas. Diretamente ligado ao setor da construção, o item é justamente o que tem mais impulsionado a recuperação da exportação brasileira em 2021.

O esperado ajuste de preços para o minério de ferro deve vir de forma mais acelerada, mas ainda assim a balança comercial brasileira deve ter um superávit comercial robusto e recorde este ano.                                                                                                                                                        

A fatia do produto na exportação brasileira avançou de 10,4% para 17,2%. Com o desempenho, de janeiro a agosto deste ano, o Brasil exportou US$ 32,4 bilhões em minério de ferro, já ultrapassando os US$ 25,8 bilhões embarcados no ano passado inteiro.

Foi a China que deu o ritmo do avanço já que quase dois terços do minério de ferro exportado pelo Brasil tem como destino o mercado chinês. Os embarques de minério de ferro ao país asiático no acumulado até agosto atingiram US$ 20,5 bilhões, também ultrapassando os US$ 18,5 bilhões do ano passado inteiro.

 

Embora os valores embarcados do item tenham mais que dobrado de janeiro a agosto deste ano em relação a igual período do ano passado, o volume atingiu 233,35 milhões de toneladas e aumentou apenas 10,8% em igual período, o que deixa claro o efeitos dos preços.

Antes do caso Evergrande bater nos mercados esta semana, o preço do minério de ferro já vinha sofrendo ajustes. José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), destaca que esse efeito aparece nos dados oficiais de exportação de setembro. Na primeira semana de setembro o preço médio do minério de ferro exportado estava a US$ 153 a tonelada, baixando para US$ 130 a tonelada na segunda semana e, no período seguinte, para US$ 124 a tonelada.                                                                                               

A quantidade exportada em setembro, com média diária de 1,35 milhão de toneladas, está abaixo dos 1,78 milhão de toneladas também de média diária de igual mês do ano passado.

Para Castro, a tendência de redução de preços deve se manter nos últimos três meses do ano, mas ainda é difícil saber o nível de preços para 2022.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que o ajuste de preços já esperado no curto prazo para o minério de ferro deve se acelerar com o caso Evergrande, o que deve levar a revisões de projeções de balança para 2022, mas não são esperadas quedas a níveis dramáticos e sim uma acomodação a preços mais próximos dos habituais, num processo de devolução da grande alta a que se chegou no início deste ano.

“O ciclo de preço de commodities pode ser mais curto do que se imaginava, mas de qualquer maneira o câmbio está bastante depreciado e dá sustentação aos preços em reais.”

Para este ano, diz Vale, mesmo com revisões de projeções, a expectativa é ainda de superávit comercial robusto, com novo recorde, ainda que em níveis abaixo do esperado mais ao início do ano.

Castro também aponta que deve haver novo recorde, lembrando que o atual é de superávit de US$ 56 bilhões, já considerando os ajustes metodológicos feitos pelo governo federal nos dados oficiais.


Fonte: Por Marta Watanabe, Valor — São Paulo, 21/09/2021