O Banco Central não moveu a taxa básica de economia dos 6,5%, na qual está estacionada desde março, mas há sinais no horizonte de que poderá ter de agir em futuro próximo diante de pressões inflacionárias ainda comedidas e do aperto das condições financeiras domésticas e externas. A causa, em ambos os casos, é a depreciação cambial, que reflete condições externas mais instáveis, reforçadas por um cenário eleitoral absolutamente imprevisível.

O Comitê de Política Monetária repetiu até em detalhes os termos da ata de sua reunião de agosto e reiterou o truísmo de que se as condições econômicas tornarem-se adversas, agirá de acordo. Ainda assim, com poucas palavras, deu importante sinalização: quando e se a Selic voltar a precisar de correção para cima, isso será feito de forma suave. O estímulo monetário "começará a ser removido gradualmente caso o cenário prospectivo para a inflação no horizonte relevante para a política monetária e/ou seu balanço de riscos apresentem piora", registra seu comunicado.

O tempo para prosseguir com uma política acomodatícia pode estar se esgotando, se a desvalorização do real não retroceder da próxima ao pico de setembro. Pelos cálculos do BC, mantido o câmbio em R$ 4,15 por dólar e em 6,5% a Selic, o IPCA já se aproximará do centro da meta de inflação este ano, atingindo 4,4%. No ano que vem, porém, ultrapassaria o centro, de 4,25%, para chegar em 4,5%.

Não há perspectiva de que a curto prazo o cenário externo seja menos conturbado, embora nada garanta que ele siga o roteiro conturbado de turbulências que levaram às megadesvalorizações na Turquia e Argentina. O incerto ritmo da normalização monetária nos Estados Unidos e o acirramento da guerra comercial dos EUA com a China são focos permanentes de tensão que se prolongarão ainda por um bom tempo. Esses fatores, que mantêm aceso nos investidores a aversão ao risco em países emergentes com desequilíbrios - o do Brasil é sua situação fiscal -, é pouco provável que as cotações do dólar recuem significativamente e a curto prazo devolvam os 18,7% que já subiram no ano até agora.

O ímpeto altista do dólar, que se espraiou às demais moedas emergentes, arrefeceu nas últimas semanas. Mas a desvalorização do real prosseguiu por encontrar apoio em fatores domésticos, como as incertezas eleitorais. O que está em jogo é a continuidade das reformas, em especial medidas que ajudem a interromper a desastrosa trajetória da dívida pública. A questão frequenta as atas e comunicados do Copom há um bom tempo e a realidade agora lhe dá mais relevo. A próxima reunião do comitê será realizada já com um novo presidente eleito, em 31 de outubro. "A percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes", reitera o comunicado de quarta-feira.

As pressões inflacionárias advindas da alta do dólar estão sendo suavizadas pela mais que lenta recuperação da economia, que arrasta consigo uma enorme capacidade ociosa. No entanto, a influência do câmbio se faz sentir nos preços monitorados, especialmente nos combustíveis. Nos doze meses encerrados em agosto, os preços dos bens monitorados evoluíram 9,6%, enquanto que os preços livres subiram apenas 2,4% (Valor, 18 de setembro).

A previsão do Banco Central para a evolução dos preços administrados e monitorados é de 7,3%, mas há projeções privadas que apontam variação maior. Nessa conta ainda é preciso incluir a elevação dos preços da energia elétrica - que quase nada têm a ver com a variação do dólar, exceto no caso do fornecimento de Itaipu. A expectativa de alguns analistas é de que a conta de energia suba 14% no ano.

O juro real dos contratos futuros de juros, que determinam a taxa cobrada nos empréstimos correntes subiu e está acima de 4%, agindo na direção contrária à política monetária estimulativa do BC Quando o dólar deu saltos, no primeiro semestre, houve pressão dos mercados por alta da Selic. O mesmo movimento não se observa agora.

Para o Banco Central e sua credibilidade, o determinante é manter a expectativa de inflação ancorada - e ela está. As projeções constantes do Focus não apontam o IPCA fora da meta neste e no próximo ano, embora as instituições consultadas esperem aumento da Selic para 8% ao longo de 2019. O BC pode sancionar ou não esta expectativa, se o balanço de riscos se tornar desfavorável a partir de outubro. Mas quando agir, o fará calmamente, promete.

Fonte: Valor - Opinião, 21/09/2018