Painéis de captação de energia solar nos telhados, baterias de veículos elétricos e outros pequenos recursos energéticos serão autorizados a abastecer os mercados atacadistas de energia elétrica nos EUA. A medida desafia sistemas de fornecimento verticais controlados pelas companhias de energia.

As novas regras, aprovadas ontem pela Comissão Federal Reguladora de Energia dos EUA (Ferc), colocam esses recursos energéticos dispersos para concorrer com as grandes usinas de energia elétrica e têm potencial de acelerar investimentos em projetos de captação e de armazenagem de energia solar em residências e empresas.

A portaria sobre “recursos energéticos distribuídos” é a mais recente medida do republicano Neil Chatterjee, presidente da Ferc, a refletir a mudança dos padrões de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.

“Os recursos energéticos distribuídos podem estar ocultos à vista de todos em nossas residências, empresas e bairros de todo o país. Mas sua energia é poderosa”, disse Chatterjee.

Como exemplos, Chatterjee citou painéis de captação de energia solar instalados nos telhados, baterias de armazenagem doméstica e a “resposta à demanda”, em que os clientes são pagos para reduzir seu consumo, reduzindo assim a demanda sobre a rede elétrica.

Os veículos elétricos podem ser vinculados por um agregador enquanto estiverem estacionados e ligados, disse ele, tornando-se, na prática, uma grande bateria que pode alimentar a rede elétrica em determinados períodos.

“Ao ativar a energia dos veículos elétricos dessa maneira, conseguiremos reduzir ainda mais os custos nos nossos mercados e fortalecer a capacidade de recuperação da rede elétrica. Para não falar das vantagens agregadas das reduções de emissões que poderemos colher da maior mobilização dos veículos elétricos”, disse Chatterjee.

A decisão de ontem soma-se à política que já permite que instalações de armazenagem de energia vendam aos mercados de energia elétrica. Reguladores estaduais e geradoras de energia perderam disputas judiciais contra a regra de armazenagem de 2018, nos quais argumentavam que a Ferc tinha extrapolado suas atribuições.

A portaria permitirá que as empresas formem pacotes de serviços de energia elétrica e de outra natureza de milhares de localidades individuais e os vendam a mercados de atacado regulamentados pela Ferc como a PJM Interconnection, que se estende de Chicago até a costa leste, ou a Califórnia.

Chatterjee citou estudos que preveem que nada menos que 380 gigawatts (GW) de recursos energéticos distribuídos poderão entrar em operação até 2025. As centrais elétricas dos EUA têm atualmente cerca de 1.100 GW de capacidade de geração no total.

Autoridades da Ferc definiram recursos distribuídos como geração de energia elétrica de pequena escala ou tecnologias de armazenagem de magnitude, em geral, de 1 kilowatt a 10.000 kW.

As posições de Chatterjee na Ferc às vezes agradam e outras frustram os defensores da energia limpa. Ex-assessor do senador republicano Mitch McConnell, ele votou a favor de uma regra que, segundo alguns Estados, atropela os subsídios aos projetos renováveis como os parques de captação de energia eólica em alto-mar.

Mas ele votou a favor da regra de armazenagem de 2018, capaz de desbancar alguma geração à base de combustíveis fósseis, na medida em que as baterias absorvem o excedente de energia solar e eólica que pode, então, ser usado em períodos de pico de demanda.

A nova portaria foi elogiada pela Associação de Indústrias de Energia Solar. “A concorrência nos nossos mercados de energia elétrica é uma parte fundamental da nossa migração para energia limpa”, disse Katherine Gensler, vice-presidente da associação. “Essa regra vai criar empregos, impulsionar as economias regionais e possibilitar que a indústria solar responda por 20% da geração de energia elétrica americana até 2030.”

O grupo de pesquisa ClearView Energy Partners, de Washington, disse que é pouco provável que a nova regra da Ferc seja polêmica do ponto de vista político, mas disse que um fator mais significativo no fomento aos recursos distribuídos poderão ser as tarifas de energia elétrica de varejo - o domínio dos órgãos reguladores estaduais.

Richard Blick, o único democrata na comissão de três pessoas, acompanhou o voto de Chatterjee a favor da portaria. Um voto contrário veio de James Danly, republicano como seu presidente.


Fonte: Valor Econômico - Mundo, por Gregory Meyer - Financial Times, de Nova York, 18/09/2020