A Eternit vai entrar em novo negócio, o de telhas de concreto e fibrocimento com painéis fotovoltaicos. O grupo vai atuar no segmento por meio da Eternit Solar, empresa em fase de constituição que venderá "soluções fotovoltaicas", segundo informou ao Valor o presidente, Luís Augusto Barbosa. A expectativa é que a produção comercial de telhas fotovoltaicas comece no prazo de 12 a 18 meses.

A entrada no novo segmento faz parte do plano estratégico que começou a ser implantado há dois anos e meio, abrangendo reestruturação da companhia, mudanças tecnológicas decorrentes da suspensão do uso do amianto e recuperação judicial. "No segundo trimestre, voltamos a liderar o mercado de telhas de fibrocimento", diz Barbosa.

O executivo não divulga os investimentos nas telhas com células fotovoltaicas de silício monocristalino (o desenvolvimento teve início há um ano) nem qual a expectativa de participação do segmento na receita do grupo, mas deixa claro que se trata de um dos produtos com margens mais elevadas.

"As telhas fotovoltaicas marcarão a grande virada do grupo, que vai se transformar de uma companhia exclusivamente de materiais de construção em uma empresa também de alta tecnologia", diz Barbosa. O momento da virada dependerá, segundo ele, da velocidade com que a demanda será atendida.

A Eternit importa as células fotovoltaicas da China e a acopla, diretamente, em parcela das telhas. Produzidas pela controlada Tégula, na fábrica de Atibaia (SP), as coberturas de concreto com os painéis serão destinadas às classes A e B. Foram desenvolvidas telhas de 9,16 watts e dimensão de 365 milímetros por 475 milímetros, em cinco cores. Cada uma tem capacidade de produção média de 1,15 kilowatt-hora (kWh) por mês. A telha de concreto já foi homologada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

Entre seis meses e um ano, serão feitos testes de durabilidade do produto com clientes específicos. "Legalmente, estamos autorizados a vender as telhas, mas ainda não testamos a durabilidade", diz o executivo.

Em breve, serão implantados painéis fotovoltaicos também em parte das telhas de fibrocimento, fabricadas em unidades do Rio de Janeiro, de Simões Filho (BA), Colombo (PR) e Goiânia. Isso possibilitará a venda de produtos fotovoltaicos também para a baixa renda e em diversos formatos. Além de construções residenciais, as telhas serão direcionadas para instalações industriais e agrícolas, e para aviários.

De acordo com Barbosa, o cliente terá economia de 10% a 20% no valor total a ser pago pelas telhas fotovoltaicas e pela instalação em relação ao de telhas sem a tecnologia somado ao de painéis solares montados separadamente. Já o retorno do investimento decorrente da economia de energia elétrica quando o consumidor opta por comprar uma telha fotovoltaica em comparação a uma tradicional é estimado de três a cinco anos.

O executivo ressalta o grande potencial de expansão do segmento. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) citados pela Eternit apontam que, no acumulado do ano passado, 35 mil sistemas fotovoltaicos foram instalados em residências e conectados à rede. No primeiro semestre, o número chegou a 32 mil domicílios.

No segundo trimestre, a Eternit reduziu seu prejuízo líquido em 15%, na comparação anual, para R$ 29,5 milhões. Questionado sobre quando a companhia retomará a lucratividade, Barbosa não informou sua expectativa, mas disse que a tendência é de melhora no desempenho dos principais negócios.

Paralelamente ao desenvolvimento da nova tecnologia, a Eternit tem executado seu plano de recuperação judicial. Por meio da dação de ativos a credores, a companhia quitou, há um mês, R$ 57,7 milhões de sua dívida concursal. Exemplo disso foi a dação do prédio onde se localiza a sede da companhia em Pinheiros, na zona Oeste da cidade de São Paulo, para os bancos Bradesco e Alfa.

No fim de maio, a Eternit demitiu os 400 funcionários da controlada Sama, mineradora de amianto localizada em Minaçu (GO), cujas atividades estavam suspensas desde 11 de fevereiro. "Em Goiás, foi publicada autorização para extração do amianto, no Estado, para exportação, o que é conflituoso com a proibição do STF [Supremo Tribunal Federal]. Pedimos que o STF avalie a questão estadual", conta o executivo. Em setembro, será paga a última parcela da rescisão dos ex-funcionários.


Fonte: Valor - Empresas / Indústria, por Chiara Quintão | de São Paulo, 27/08/2019