O Banco Central divulgou, ontem, uma pouco usual nota para comentar os dados de seu índice de atividade econômica, conhecido pela sigla IBC-Br. Ao contrário do que dizem os números frios, que apontam queda de 0,99% no segundo trimestre, ante o primeiro, o Produto Interno Bruto (PIB) estaria "relativamente estável" no período.

O BC não costuma fazer considerações sobre o que chama de dados de alta frequência. No passado, já teve o hábito de comentar dados anuais do PIB, mas raramente dados trimestrais. A nota sobre um indicador mensal é uma novidade, pelo menos na gestão Ilan Goldfajn. Por isso, é uma mensagem que deve ser entendida dentro da estratégia mais geral de comunicação do Banco Central.

Certamente, a autoridade monetária não está dando nenhum recado novo sobre a direção a política monetária. A equipe de Ilan tem sido disciplinada em atualizar o cenário econômico e tomar as decisões apenas nas reuniões do seu Comitê de Política Monetária (Copom) e comunicá-las pelos canais tradicionais, como comunicados, atas, relatórios de inflação e discursos. Na gestão Tombini, o BC chegou a mudar totalmente o rumo da política monetária comentando dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a atividade econômica brasileira.

Mais do que a direção da política monetária, aparentemente, a nota abre como a instituição pretende ler os dados do Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) nas próximas reuniões do Copom.

Naturalmente, o recado não deixa de ter implicações para a política monetária. É muito importante saber como o Copom vai ler os dados do IBCBr. A atividade econômica, é bom lembrar, é um dos componentes que o BC vem dizendo que vão determinar seus próximos passos de política monetária, ao lado de outros fatores, como projeções de inflação, expectativas e balanço de riscos.

Hoje, o BC trabalha com um cenário básico de "continuidade do processo de recuperação da economia brasileira, em ritmo mais gradual do que aquele esperado antes da paralisação" dos caminhoneiros. Também vem citando, no seu balanço de riscos, a possibilidade de o alto grau de ociosidade da economia levar a uma inflação menor do que a projetada, prejudicando a convergência dos índices de preços para as metas.

E como, tecnicamente, o BC está lendo o IBC-Br? Basicamente, a nota diz que os dados sugerem uma estabilidade, e não queda da economia, entre o primeiro e o segundo trimestres.

Isso porque, na visão da autoridade monetária, o IBC-Br costuma ser muito volátil nos dados trimestrais. Esse é um indicador mais confiável de tendência em prazos mais longos, de cerca de um ano.

Na comparação entre o segundo trimestre de 2017 e o segundo trimestre de 2018, o indicador avançou 0,84%. Já na comparação entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, houve queda de 0,99%.

Desses dados, o BC conclui que houve estabilidade. Nas palavras exatas da sua nota, o BC diz que "essa variação interanual seria consistente com a  evolução relativamente estável do PIB na margem, isto é, considerado o PIB do 2º trimestre em relação ao PIB do 1º trimestre, ajustado sazonalmente".

A rigor, não houve nenhuma inovação na maneira de o BC ler os números do IBC-Br. Em box do relatório de inflação de março, o BC já havia reafirmado a sua posição de que os dados trimestrais do IBC-Br são muito voláteis e podem dar uma indicação equivocada de tendência, enquanto que os dados interanuais são um indicador mais seguro.

Se o Copom fosse se reunir hoje, portanto, iria concluir que a economia ficou relativamente estável no segundo trimestre. Qual seria o significado dessa economia estável para a política monetária mais imediata?

Isso ainda não está totalmente claro. O BC não divulga projeções trimestrais para o PIB, por isso não é possível saber se a autoridade monetária já contava com essa estabilidade ou foi surpreendida. Mais importante, não se sabe ainda se os dados mudam a sua leitura sobre a recuperação da economia.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Alex Ribeiro , 16/08/2018