Algumas corretoras começaram a oferecer empréstimos que têm as aplicações financeiras dos clientes como garantia. Esse tipo de modalidade, que existe em alguns grandes bancos, permite que o crédito seja dado com taxas de juros bem mais baixas, já que o investimento fica bloqueado para resgate até o pagamento do empréstimo e, caso a pessoa não consiga quitar até determinado prazo, o dinheiro é tomado pela instituição financeira.

A ideia desse tipo de oferta é dar crédito para quem está em alguma emergência ou deseja aproveitar um ativo imperdível - como a abertura relâmpago de um fundo de investimento disputado -, mas não pode ou não quer resgatar investimento para isso. Apesar de o produto poder parecer tentador, especialistas alertam que, na maioria dos casos, é preferível sacar a aplicação financeira.

As corretoras que estão virando bancos começaram a oferecer com mais frequência esse tipo de empréstimo à medida que a taxa básica de juros, a Selic, caiu. Atrás de retornos mais altos, investidores passaram a abrir mão da possibilidade de resgate a qualquer dia - a chamada liquidez diária - e a alongar o prazo dos investimentos. Assim, o dinheiro fica preso e, em alguns casos, é necessária uma alternativa de recurso acessível.

Cada empresa criou o seu modelo de análise da capacidade de pagamento da pessoa para aprovar ou negar crédito e definir o valor. Ter aplicações financeiras na plataforma é essencial, mas às vezes não é suficiente. Algumas corretoras ainda consultam bases de dados públicas. Além disso, o investimento exigido como garantia muda conforme a casa: podem ser títulos de renda fixa, ações, fundos de investimento ou qualquer opção.

Em algumas corretoras, o empréstimo é acessível a qualquer cliente, mas em outras é preciso ter um valor mínimo aplicado com a instituição. O valor do crédito é de R$ 5 mil a 85% do valor de todos os investimentos nas empresas consultadas pelo Valor Investe, que foram Guide, XP e Easynvest by Nubank.

O juro médio é entre 0,6% e 1,5% ao mês. A taxa é abaixo do juro médio de empréstimo pessoal no Brasil, de 5,4% ao mês, e menor ou igual à do crédito consignado, de 1,5% ao mês, conforme o Banco Central. O prazo de pagamento é de três a 60 meses. A partir de 30 dias de atraso no pagamento, as plataformas podem tomar a garantia. As plataformas afirmam que antes disso procuram renegociar a dívida e, por isso, é bem raro “a garantia ser executada”.

A XP entrou para esse grupo no ano passado, após notar que havia demanda de clientes por outros produtos dentro da corretora, que desejavam cortar o cordão umbilical com o banco. O crédito é acessível apenas àqueles que possuem a partir de R$ 100 mil investidos, mas a ideia é oferecer a todos em breve.

“É para quem precisa do dinheiro para eventualidade ou oportunidade, mas não quer se desfazer do investimento”, afirma Lucca Cerf, chefe de crédito estruturado na empresa. Ele adverte: “A pessoa tem que saber muito bem que o crédito é atrelado à aplicação financeira e que há risco de perder o dinheiro que deu como garantia”.

A Guide também foi uma das que entrou no time no ano passado, fez uma parceria com a fintech de crédito Nobli e tem notado crescimento da demanda. Apesar de não planejar ser uma plataforma de empréstimos, a corretora quis oferecer um conforto aos clientes, conforme Felipe Steinfeld, chefe de negócios para consumidores (B2C, em inglês) da casa.

“É importante que o cliente monte uma carteira de mais longo prazo sem se preocupar com os eventos de curto prazo”, afirma. “Para quem tem posição em Vale, que paga mais dividendos do que custaria o crédito, faz sentido manter a ação e tomar empréstimo para alguma necessidade de curto prazo”, diz.

No entanto, ele alerta que nem sempre faz sentido contratar empréstimo. Caso o investidor esteja em um CDB com rendimento mais baixo que a taxa do crédito, por exemplo, é melhor sacar o papel, de acordo com Steinfeld. “Nosso papel é entender a necessidade e a capacidade de pagamento do cliente e a partir daí recomendar ou não”, afirma.

Esse é exatamente o ponto que o investidor precisa observar, segundo especialistas. É preciso comparar o juro do crédito ao retorno da aplicação financeira e, assim, saber quanto custará o empréstimo e quanto se deixará de ganhar com o investimento.

Um crédito que custa 0,6% ao mês, por exemplo, só vale a pena se a aplicação financeira der retorno acima disso. Ou seja, não compensa para quem tem papéis de renda fixa, que pagam 100% do CDI ou da Selic, atualmente em 4,25% ao ano, o equivalente a 0,35% ao mês.

“Abra mão do investimento nesse momento, use o dinheiro e vá reinvestindo novamente. Em geral, essa política é melhor do que tomar crédito”, afirma Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV EAESP.

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Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Júlia Lewgoy — De São Paulo, 20/07/2021