(Valor: Atualizada às 10h06 em 17/7/2019 para corrigir o nível de ociosidade da Whirlpool) 
A aprovação da reforma da Previdência na Câmara, em primeiro turno, não trará investimentos de vulto no setor produtivo no curto prazo, mas serve para eliminar incertezas, entre os empresários, em torno da capacidade de o governo alcançar o reequilíbrio das contas públicas. Para executivos de grandes empresas, embora incompleta, sob alguns aspectos, a reforma aprovada é a injeção de ânimo que pode, em setores como a indústria, começar a reduzir a capacidade ociosa provocada pela crise.

Existe, porém, quem estava só esperando a votação da semana passada para tirar da gaveta um projeto de investimento. A JCB, uma grande fabricante de máquinas de construção e agrícolas, de origem britânica, confirmou ontem um plano de investimentos de R$ 100 milhões para os próximos três anos. "A decisão foi tomada com as sinalizações positivas de que as reformas, tanto a previdenciária quanto a tributária, de fato sairão. A percepção de que o país entrou numa rota de crescimento é maior agora", afirma José Luis Gonçalves, presidente da JCB na América Latina. Os recursos serão usados na fábrica de Sorocaba (SP) para nacionalizar oito modelos de máquinas, hoje importados.

Por causa da ociosidade, que gira em torno de 25%, a indústria em geral não tem, no entanto, planos imediatos de investir em expansões. "O mercado financeiro apostou muito nisso [aprovação da reforma], mas ele transaciona vento, títulos. Não constrói casas, não tem uma atividade produtiva. O empresário não vai sair gastando, empregando e investindo em razão disso", destaca Julio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Mas para a maioria, o que vale é a confiança que a tão aguardada votação representa. Para Walter Schalka, presidente da Suzano maior produtora mundial de celulose de eucalipto, apesar de "levemente recessiva no curto prazo, uma vez que vai retirar dinheiro do mercado, a nova Previdência amplia a confiança no Estado brasileiro". "Não vai solucionar todos os problemas do país, mas, por representar um passo importante para estabilização do déficit fiscal e estampar o compromisso do Estado com o equilíbrio, terá desdobramentos positivos", destaca.

O próprio Ministério da Economia, afirma Schalka, aguarda a aprovação definitiva das novas regras para dar sequência a outros projetos. "A reforma trará as microreformas na sequência. Ao gerar credibilidade, haverá retomada de investimentos e geração de empregos e a bola da economia roda", afirma.

João Carlos Brega, presidente da Whirlpool América Latina, a maior fabricante da linha branca na região, também está confiante e discorda da ideia de o consumo se retrair com as mudanças nas regras de aposentadoria. Para ele, a economia começará a se mover. "Vai aparecer gente emprestando dinheiro, gente mais otimista gastando e, com isso, haverá diminuição do desemprego", diz.

Brega concorda, no entanto, que não há motivos para pensar em expansão industrial hoje. Em 2018, o volume de vendas do setor de linha branca foi igual ao de 2008. A Whirlpool trabalha com ociosidade em torno de 25%. Segundo o executivo, há espaço, ainda, para o consumo crescer por mais três a quatro anos sem provocar pressão inflacionária. Brega está agora de olho na reação do mercado imobiliário. "Quem compra um apartamento vai querer uma geladeira nova", afirma.

Para a maioria dos executivos, o resultado da votação no Congresso abre espaço para um ambiente propício à manutenção de taxas de juros baixas, o que pode impulsionar a venda de imóveis. Para alguns, o cenário é ideal até para o Banco Central reduzir ainda mais a taxa Selic.

Rubens Menin, fundador e presidente do conselho da MRV, segunda maior construtora residencial do país, está otimista em relação à nova queda dos juros e à capacidade de o setor imobiliário continuar a reagir positivamente a isso. De abril a junho, as vendas das sete maiores incorporadoras do país somaram R$ 4,43 bilhões, um avanço de 38,44% em relação ao segundo trimestre de 2018. "Somos um gestor de adrenalina", afirma.

Os que falam com investidores estrangeiros também estão otimistas. O diretor comercial da Brametal, maior fabricante de estruturas metálicas do país para o setor de energia, Alexandre Schmidt, diz que a tendência de aprovação da nova Previdência ainda em agosto pode representar "a liberação quase imediata" de investimentos em infraestrutura planejados por multinacionais. Ele conta, baseado em recentes reuniões no exterior, que esses grupos esperam apenas o desfecho da primeira parte da agenda do governo de Jair Bolsonaro como uma sinalização de sua capacidade em aprovar outras reformas, como a tributária.

Schmidt projeta um impacto sensível no consumo de energia pela indústria, puxado por demanda do varejo, o que aumentará a demanda para fornecedores como a Brametal, que também fabrica estruturas para torres de telecomunicação. O efeito em cadeia, segundo o executivo, tende, no entanto, a demorar um pouco mais de um ano para ser sentido.

Algumas empresas já fazem cálculos de uma retomada da atividade em 2020. Na Randon, maior fabricante de reboques e semirreboques da América Latina, não houve mudança de projeções imediatas, mas a direção da empresa de Caxias do Sul (RS) aposta em benefícios no longo prazo. "Acreditamos que a partir do quarto trimestre a mudança vai gerar um novo momento de confiança, o que pode garantir nível robusto de pedidos para os próximos anos", diz Paulo Prignolato, diretor financeiro do grupo. Ele conta com a aprovação do texto da reforma da Previdência pelo Senado até setembro.

"Os efeitos não ocorrem como um passe de mágica; essa onda de confiança requer outros movimentos do governo, como outras reformas, plano de concessões, e melhorias na infraestrutura para reduzir o custo Brasil", destaca Prignolato. Para Eduardo Ribeiro, presidente da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), o impacto da aprovação das novas regras na Previdência tende a aparecer de fato em 2020. "Será quando teremos uma sinalização mais clara das outras reformas", afirma.

O setor de inovação também aguarda os desdobramentos da aprovação da reforma previdenciária. Segundo o presidente da Fábrica de Startups do Brasil, Hector Gusmão, o grupo de fomento de empresas novatas tem planos de expandir fora do Rio de Janeiro. Mas, afirma, isso depende diretamente do sucesso da mudança nas regras da Previdência.

Segundo o executivo, a área de inovação lida diretamente com capital de risco. Se a reforma for aprovada, Gusmão acredita que haverá mais investidores propensos a assumir riscos. Caso contrário, a expansão fica comprometida. "No modelo de expansão da Fábrica, existe uma diretriz muito forte de capital de risco. Se não houver mudança na Previdência, não haverá capital de risco", diz.

Há, no entanto, no meio empresarial, os que se frustraram com o resultado da votação na Câmara. "Não foi uma goleada", afirma Márcio Utsch, ex-presidente da Alpargatas e presidente do conselho da Cemig, companhia energética de Minas Gerais. Utsch lamenta que o valor da economia estimada para os próximos dez anos com a reforma, tenha ficado abaixo do programado pelo governo. "São quase R$ 300 bilhões menos que fazem muita diferença", destaca.

A exclusão de Estados e municípios na proposta de emenda constitucional é criticada por Utsch, e o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, aponta a frustração, no setor, que acreditava que as duas votações na Câmara aconteceriam antes do recesso.

No setor de comércio, o Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), que reúne as maiores redes do país, não crê numa retomada acelerada do setor exclusivamente pela aprovação das mudanças nas regras de aposentadoria. Antes mesmo da votação na Câmara, o IDV já afirmava que a retomada da economia e do varejo será gradativa e que os investimentos do setor devem ser destravados gradualmente, de acordo com a melhora do ambiente econômico.

"O nível de investimento no Brasil está baixo, e o ritmo da retomada [desses desembolsos] vai depender de como vierem o humor e a confiança do consumidor", disse, em entrevista ao Valor semanas atrás, Marcelo Silva, presidente do IDV.

Para Almeida, do Iedi, a vitória inicial do projeto pode frear os cortes que analistas têm feito nas previsões para o PIB de 2019. "O investimento público caiu tanto que qualquer melhora pode ser importante", destaca. (Colaboraram Adriana Mattos e Gustavo Brigatto, de São Paulo)


Fonte: Valor - Finanças, por Marli Olmos, Ana Paula Machado, Anais Fernandes, Stella Fontes, André Ramalho e Gabriel Vasconcelos - de São Paulo e do Rio, 17/07/2019