A eventual eleição neste ano de um presidente que abandone a agenda de ajuste fiscal e melhora do ambiente de negócios levaria à contração de queda do PIB de 2019 a 2021 e a um quadro de inflação crescente, superior a 15% em 2022, avalia a 4E Consultoria. "A alternativa populista possível e relativamente fácil de ser implementada é a emissão monetária para o pagamento dos diversos compromissos do setor público", aponta a 4E, que atribui 25% de probabilidade a esse cenário.

Na visão da consultoria, um dos principais riscos da eleição presidencial de 2018 é que seja eleito um candidato sem compromisso com a agenda de "correção de desequilíbrios macro e microeconômicos". O imbróglio fiscal é o maior desses problemas e a sua resolução passa, para a 4E, por um reequilíbrio entre receitas e despesas, com a reforma da Previdência sendo peça fundamental dessa estratégia.

Em relatório em que traça cenários de longo prazo, a consultoria observa, porém, que esse não é o único caminho possível. "Um governo populista certamente buscaria outra forma para lidar com a restrição fiscal", afirma a 4E. "A alternativa populista possível e relativamente fácil de ser implementada é a emissão monetária para o pagamento dos diversos compromissos do setor público."

Essa emissão gera inflação, "o equivalente a um imposto sobre os detentores de moeda e de dívida pública", diz a consultoria. "Essa alternativa pode ser encarada como um ′calote branco′ nos detentores de dívida pública, dado que esses receberão bem menos, em termos reais [descontada a inflação], do que o esperado quando compraram o título público."

Se esse cenário se concretizar, a 4E antevê a aceleração dos índices de preços ao longo do próximo ciclo político. A inflação alcançaria 10% em 2020 e atingiria 15,7% em 2022. O PIB, por sua vez, encolheria a uma média de 1,4% ao ano entre 2019 e 2021, crescendo apenas 0,5% no ano seguinte. Os impactos seriam mais pronunciados sobre os investimentos, que voltariam a apresentar queda forte em 2019 e 2020. Com isso, a taxa de investimento cairia para a casa de 13% do PIB - em 2017, a taxa ficou em 15,5% do PIB, um número já muito baixo, muito inferior aos 20,9% do PIB registrados em 2013.

Por enquanto, a 4E ainda tem como cenário básico a eleição de um presidente que siga a agenda de reformas, aprovando logo no começo "uma reforma da Previdência robusta". Essa hipótese, que ainda teria 65% de chances de se materializar, faria o país retomar um crescimento mais forte, com a economia avançando em média 3,5% ao ano no próximo mandato presidencial. Como essa expansão se daria sobre capacidade já existente, o avanço da economia poderia ocorrer com a inflação ancorada às metas perseguidas pelo Banco Central (BC), diz a 4E.

Por fim, a consultoria atribui 10% de chances a um cenário otimista, cujas premissas são condições políticas e econômicas mais favoráveis. "Há pouco o que pode avançar neste ano em relação às premissas do cenário básico, mas, se um candidato reformista melhorar o seu desempenho nas pesquisas, isso já gera uma melhora no ambiente e na situação econômica." Nesse caso, o novo governo aprovaria rapidamente uma reforma da a Previdência ampla, "distanciando de vez o fantasma de uma trajetória insustentável da dívida pública", diz a consultoria. Haveria também uma reforma tributária mais profunda, com unificação de tributos e simplificação de regras, o que reduziria custos de transição e permitiria ganhos de eficiência no setor público e no setor privado. "Reformas microeconômicas e avanços consideráveis no ambiente de negócios também fazem parte desse cenário. Essas premissas se refletem em maior crescimento da produtividade, que recupera rapidamente parte da queda dos últimos anos e se estabiliza em um  crescimento médio de 0,8% ao ano, acima do 0,6% do cenário básico." O quadro fiscal teria uma sensível melhora. Com tudo isso, o país cresceria a uma média de 4,5% ao ano no próximo governo, com os investimentos puxando a expansão da economia. 

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci , 22/06/2018