A manutenção da Selic em 6,5% ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) provocou uma reação em cadeia no mercado, criando na prática uma retroalimentação entre o câmbio e os juros, o que pode levar a um aperto mais forte nas condições financeiras, diz o economista Paulo Miguel, sócio e diretor de investimentos da GPS Investimentos. Se esse aperto persistir, pode ser "mais um fator de potencial desaceleração para a atividade econômica, que ainda está cambaleante", avalia ele.

Para Miguel, contudo, é muito prematuro alterar ainda mais as projeções para a economia devido aos eventos da semana passada. Ele trabalha hoje com uma taxa de crescimento de 2,5% neste ano ou um pouco menos - no começo do ano, esperava 3%.

É possível reverter essa espiral negativa, diz o economista da GPS, empresa de gestão de patrimônio do grupo suíço Julius Baer. É importante verificar se haverá uma estabilização das percepções no mercado, sendo relevante aguardar o teor da ata da reunião do Copom, a ser divulgada amanhã, e ver se haverá uma reação mais enérgica do BC no câmbio - na sexta-feira, depois do fim dos negócios, a autoridade monetária informou que vai ampliar a oferta de swaps cambiais (instrumentos para proteção contra oscilações da moeda).

Para Miguel, o mercado entendeu que, ao manter a Selic em 6,5% ao ano, reforçou-se "a ligação entre câmbio e juros" na função de reação do BC. A maior parte do mercado apostava em queda para 6,25%. Em manifestações anteriores, diz o economista, a autoridade monetária destacava o papel das expectativas ancoradas e da atividade fraca - os efeitos secundários do real mais desvalorizado é que eventualmente seriam combatidos, para impedir a contaminação para outros preços.

Essa percepção provocou ajustes fortes no mercado de juros, com uma diminuição de posições dos investidores, e o câmbio seguiu em depreciação. Essa espiral é preocupante, se mantida, porque pode levar a um aperto mais forte das condições financeiras, com impacto negativo sobre a atividade, num momento em que a economia se recupera lentamente, diz Miguel.

Antes da decisão do Copom, o real vinha se desvalorizando, um movimento que teve um papel importante do cenário externo, afirma Miguel. Há uma apreciação do dólar no mercado global que leva ao enfraquecimento das moedas emergentes. Além disso, incertezas no campo político e algum impacto da crise na Argentina também podem ter pesado sobre a moeda brasileira. O comportamento, porém, era ordenado, segundo Miguel. Isso mudou depois da decisão do Copom, dada a reação do mercado. Ele reitera, porém, que o mercado passou por um forte movimento técnico de ajuste após a reunião dos diretores do BC. É preciso ver como será a reação nos próximos dias.

Embora a economia tenha começado o ano um pouco mais fraca, Miguel acredita que ela vai ganhar tração com o passar do tempo. A queda expressiva dos juros deve impulsionar a atividade, e a possibilidade de um crescimento na casa de 2,5% ou um pouco menos lhe parece factível. "É cedo para mudar as projeções novamente." Nas últimas semanas, houve revisões expressivas das estimativas para o crescimento neste ano - o Itaú Unibanco baixou a sua estimativa de 3% para 2%.

Para Miguel, o efeito dos juros mais baixos vai dar gás à atividade, ainda que a melhora seja lenta. Há fatores que seguram uma retomada mais firme, como o fato de o avanço do emprego ser em boa parte no setor informal, por exemplo. Além disso, há muitas empresas ainda bastante endividadas e com nível elevado de inadimplência, o que afeta o investimento.

O efeito da política monetária expansionista, contudo, deve impulsionar a atividade. "Se persistir a agenda de reformas e uma política fiscal responsável, eu arrisco dizer que nós temos a melhor oportunidade desde o Plano Real para consolidar níveis de juros reais [descontada a inflação] mais próximos, ou menos distantes, dos patamares internacionais."

Os juros mais baixos têm ajudado o mercado de capitais, com o crescimento das emissões de títulos por empresas privadas, como debêntures. Para Miguel, dada a grande ociosidade na economia, a Selic tende a subir apenas no fim de 2019 ou no começo de 2020, desde que as despesas do governo e o crédito dos bancos públicos sigam contidos e o risco-país se mantenha comportado. Para isso, também é fundamental que o candidato eleito siga princípios de responsabilidade das contas públicas em seu governo. A própria situação fiscal delicada tende a desestimular "loucuras" nesse front, avalia ele. "Não tem dinheiro", resume Miguel.


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci, 21/05/2018