O real passa por maus momentos na onda de reavaliação dos preços dos ativos que veio de fora, que está provocando desvalorizações das moedas em vários países emergentes. Os investidores, de início, não estão fazendo distinções entre os "suspeitos de sempre" e estão se livrando do risco. A forte queda da taxa de juros no Brasil, por seu lado, reduziu o rendimento pago aos investidores externos, o que faria o real subir de qualquer jeito, mas não na magnitude atual.

Ontem foi mais um dia de inquietação nos mercados internacionais, depois que o rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos chegaram a 3,09%, nível superior ao do papel com o "taper tantrum" em 2013, quando o Fed deu sinal de que começaria a reduzir os estímulos monetários, e o mais alto desde 2011. O dólar se valorizou diante de todas as moedas, mesmo a dos países desenvolvidos, deixando especialmente em má situação a lira turca, que perdeu 15% de seu valor em três meses, e pressionando com intensidade o real, que se depreciou 9,8% desde 1 de abril e 9,51% no ano. Ontem, ele fechou a R$ 3,6617.

O motivo imediato da alta foram os dados do varejo americano, que subiram pelo segundo mês consecutivo (0,3% em abril), mais um entre vários números a sinalizar que o curso da inflação americana é para cima, assim como o da taxa de juros definida pelo Fed, cujo ritmo agora parece mais perto de quatro altas durante o ano do que as três que estavam na conta dos investidores no início do ano.

A favor de mais inflação nos EUA está também a escalada dos preços do petróleo, com o brent quase encostando em US$ 80 o barril, mais do que o triplo da cotação registrada em 2016. A ameaça de nova crise no Oriente Médio, com os EUA saindo do acordo com o Irã, ajudou a tornar o preço mais volátil, com tendência de alta. Se os EUA executarem a sério as sanções que Trump anunciou, é possível que um milhão de barris de poços iranianos deixe de fluir, depois que outro meio milhão de barris evaporou-se pela incompetência dos chavistas venezuelanos, que estão destruindo a PDVSA.

Há mais riscos na fila. Com a elevação dos rendimentos dos títulos do Tesouro, as ações perdem uma vantagem que vinham exibindo com folga até há pouco. A nota do Tesouro de três meses já tem yield igual ao yield médio da S&P 500 e o mesmo ocorre com o pelotão de elite da bolsa que mais paga dividendos em relação ao rendimento do título de dois anos (John Authers, FT, ontem). A valorização das bolsas americanas foi modesta e, mesmo assim, amparada por um recorde trimestral de recompra de papéis (US$ 158 bilhões) e distribuição de dividendos (US$ 1 trilhão). No ambiente atual de valorização do dólar e instabilidade das moedas, uma correção das bolsas provocaria solavancos ainda maiores e generalizados.

O cenário externo benigno está desaparecendo rapidamente e resta ao Banco Central utilizar os instrumentos de que dispõe para suavizar os movimentos de valorização do dólar até um novo e ignorado nível, compatível com o estado da economia. A inflação abaixo da meta ajuda essa acomodação, assim como a grande capacidade ociosa modera eventuais repasses do câmbio aos preços. Diante das depreciações, surgiram dúvidas sobre a eficácia do programa de ofertas de swaps cambiais. Seu estoque, porém, é baixo e as operações mal começaram. O BC pode oferecer linhas em dólar com recompra e venda de reservas.

Medidas extremas no câmbio no Brasil, no período recente, só foram necessárias, e não por longo tempo, em 2008, durante a maior crise financeira em quase 100 anos. Ainda assim, a maior vulnerabilidade brasileira é fiscal e está longe de ser resolvida. Os juros longos estão em alta também por esse motivo e já começam a captar de forma difusa o sentimento de parte dos investidores de que a eleição de outubro pode sagrar nas urnas um candidato que não ataque o desequilíbrio ou o faça relutantemente.

A normalização monetária americana, à qual logo aderirá a zona do euro, aperta a liquidez uma década após a maior injeção monetária da história do capitalismo. Isso criou fragilidades que estão se tornando expostas, embora em um ambiente de crescimento global. Ela poderá evoluir para uma crise se os juros subirem mais intensa e rapidamente do que se prevê. Não há muitos investidores apostando nisso ainda.

Fonte: Valor - Opinião, 16/05/2018