O crescimento da economia brasileira desacelerou do último trimestre do ano passado para o primeiro trimestre deste ano, influenciado pelo enfraquecimento da produção industrial, que ′contaminou′ outros setores, como o de serviços. É o que deve mostrar o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que será divulgado na manhã de hoje.

Média de 24 estimativas coletadas pelo Valor Data mostra que, em março, o indicador caiu 0,2% ante fevereiro, feito o ajuste sazonal. O intervalo das projeções vai de queda de 0,6% a alta de 0,2%. Se a projeção se realizar e os números anteriores forem mantidos, o IBC-Br do primeiro trimestre teria alta de 0,2%, na série dessazonalizada, após crescer 1% no último trimestre de 2017. O BC, contudo, costuma revisar os dados da série.

A frustração com a atividade responde sobretudo aos dados fracos da indústria, o que também deve se refletir no PIB do período, afirma Carlos  Pedroso, economista sênior do Banco MUFG Brasil. A instituição espera queda de 0,3% no IBC-Br de março e alta de 0,14% nos primeiros três meses do ano,ambos na série com ajuste sazonal. "Nos serviços, por exemplo, os dados relativos às empresas, como transportes, vieram mais fracos em março e isso está relacionado à indústria", afirma.

"Houve uma decepção muito forte com o setor industrial. Já se esperava números negativos na extrativa, mas a parte de transformação surpreendeu para baixo", afirma Daniel Duque, pesquisador de atividade do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). Ele também chama atenção para os dados negativos relacionados às empresas na Pesquisa Mensal de Serviços. "Transportes e o segmento outros serviços, que são mais relacionados à atividade econômica, não foram bem". O Ibre estima queda de 0,3% no IBC-Br de março e alta de apenas 0,1% no primeiro trimestre ante o último do ano passado.
 
Segundo o IBGE, a produção industrial ficou no zero a zero no primeiro trimestre ante o quarto do ano passado. Os serviços recuaram 0,2% em março e caíram 0,9% na mesma comparação. O varejo cresceu, mas não compensa os demais setores. O restrito subiu 0,3% em março e 0,7% no trimestre e o ampliado (que inclui veículos e materiais de construção) avançou 1,1% e 1%, respectivamente.

Pedroso, do MUFG Brasil, ressalta que a administração pública, com um peso relevante na atividade, segue contribuindo negativamente por causa do ajuste fiscal. Para o PIB do primeiro trimestre, que será divulgado no fim deste mês, o banco espera alta de 0,4%, revisada de 0,6%. A indústria também teve grande peso nessa revisão. "Há muita capacidade ociosa e a demanda frustrou", afirma. Já o Ibre estima alta de 0,3% no PIB trimestral sobre o quarto trimestre.

Quanto ao segundo trimestre deste ano, os números coincidentes de abril já conhecidos indicam um início positivo, mas este é um movimento que pode não se manter ao longo do período a depender que fatores como a crise na Argentina. A produção e vendas de veículos, observa Duque, foram surpreendentemente fortes, mas os problemas do vizinho, principal importador desse item do Brasil, podem mostrar seu impacto já em maio. O Itaú estima que, em abril, a atividade teve crescimento de 0,3%, mesma taxa prevista para o PIB do primeiro trimestre.

Para o ano, o Banco MUFG mantém a expectativa de crescimento de 2% do PIB, que se mantém desde o ano passado e está entre as mais conservadoras do mercado. Essa visão, segundo Pedroso, se deve à alta taxa de desemprego, ao comprometimento de renda que limita o consumo e a uma perspectiva de investimento ainda tímida.

Duque, do Ibre, observa que os problemas estruturais do país continuarão a pesar sobre a atividade. "O ciclo de reformas não se completou, há uma eleição próxima e cada vez mais incerta. O custo Brasil segue elevado e a infraestrutura é muito deficiente. Tudo isso vai se somando em um ambiente estrutural de pouco crescimento. Parece que o novo normal é crescer pouco".


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Ana Conceição, 16/05/2018