Os analistas econômicos estão divididos sobre se a mudança na forma de atuação do Banco Central no câmbio será suficiente para acalmar o mercado de dólar, com alguns deles pedindo intervenção mais pesada e outros defendendo cautela para não impedir que a cotação da moeda americana atinja seu novo equilíbrio.

Os economistas e operadores do setor também têm opiniões diferentes sobre como o Comitê de Política Monetária (Copom) deve reagir ao novo patamar do dólar - seguindo com o corte já sinalizado, de 6,5% ao ano para 6,25% ao ano, ou antecipando para agora a pausa no ciclo de distensão esperada para junho.

Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de política monetária do BC e atual sócio da Mauá Capital, diz que é questão de tempo para que a ração diária de US$ 250 milhões em swaps tenha um efeito "cumulativo" no mercado que alivie a percepção de pressão na taxa de câmbio.

"No primeiro dia são US$ 250 milhões. Parece que nada aconteceu. Mas no segundo dia são mais US$ 250 milhões. E no terceiro, mais US$ 250 milhões. Esse efeito de acúmulo de liquidez é importante e deve acalmar o câmbio", afirma Figueiredo.

Ele se refere aos ajustes anunciados pelo BC na sexta-feira em relação aos leilões de swap cambial. Ontem, o BC já começou a separar as operações de rolagem e as de oferta líquida. Com isso, antecipou a colocação de dinheiro "novo" no mercado.

Para Sergio Goldenstein, que foi chefe da mesa de juros do BC e atualmente é economista da Flag Asset, as mudanças operacionais foram corretas, mas o volume ofertado parece pequeno. "A moeda está num patamar que não se justifica, quando se olha para as contas externas do país e o fluxo cambial", afirma. Ainda segundo Goldenstein, "o BC deveria ter uma atuação mais incisiva para quebrar uma espiral negativa que começa a se formar".

Na avaliação do professor do Departamento de Economia da PUC-Rio Márcio Garcia, o BC atua no mercado de câmbio para evitar problemas pontuais de liquidez, nada semelhante ao programa de 2013, quando a autoridade se comprometeu com ofertas diárias de swaps e semanais de linha. "O BC está atuando como deveria atuar. Tendo alguma deficiência de liquidez, ele entra para acalmar o mercado, mas não para segurar o câmbio", explica.

Segundo Garcia, o BC indica que atua para melhorar a situação, mas tenta deixar claro ao mercado que não vai ficar provendo hedge barato para quem tomou dívida em dólar e não fez a proteção adequada e está descoberto em momento no qual o dólar busca outro patamar. "Essa não é a função do BC", diz.

Segundo o coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP), Emerson  Marçal, a valorização do dólar ante o real nas últimas semanas é reflexo da conjuntura internacional, com o mercado trabalhando com a elevação da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed), banco central americano.

"Não tem como remar contra esse processo de normalização. O mercado tem de se acostumar a essa nova realidade de juros mais altos no exterior", diz Marçal, que também é um dos responsáveis pelo Observatório de Taxa de Câmbio da FGV.

A alta do dólar também está levando analistas a cogitar a suspensão do corte de juros sinalizado para reunião nesta semana, dos atuais 6,5% ao ano para 6,25% ao ano.

Eduardo Canto, da Aria Capital, afirma que tecnicamente há argumentos tanto para manter os juros quanto para cortar. "Se pesar o cenário básico, de fato a alta do dólar não muda o quadro de inflação abaixo da meta", afirma Canto. "Mas o balanço de riscos tornou-se mais desfavorável, o que pode ser um bom motivo para não cortar os juros."

Figueiredo, da Mauá, diz não ver motivos para qualquer mudança no plano de voo do BC em relação à política monetária. Segundo ele, o mercado está embutindo "excessivo" prêmio de risco à decisão do Copom desta quartafeira. "Não há nenhuma razão para o BC não entregar o que havia sinalizado sobre a decisão do Copom. O cenário teria de fugir muito do previsto. E isso não está acontecendo."

Entre as razões que amparam nova queda da Selic nesta semana, Figueiredo cita a inflação corrente abaixo do esperado e, sobretudo, a queda nas expectativas para este ano e o próximo.

Para o ex-diretor do BC, a queda nas expectativas de inflação demonstra que o enfraquecimento das perspectivas para a atividade econômica tem se mostrado mais relevante para o cenário inflacionário do que a alta do dólar - inclusive reduzindo o repasse da variação cambial aos preços ("passthrough"). Uma depreciação de 10% do câmbio elevaria o IPCA em 0,3 ponto a 0,4 ponto ao fim de 12 meses, nas contas do sócio da Mauá. "Ou seja, não só a inflação deste ano continuaria abaixo da meta como a do ano que praticamente não seria afetada."

Fonte: Valor - Finanças, por Alex Ribeiro, Eduardo Campos e José de Castro , 15/05/2018