A alta do dólar nas últimas semanas provocou uma discussão no mercado financeiro sobre o espaço para um novo corte de juros. Mas, passado o susto e refeitas as contas, economistas ainda veem a inflação abaixo da meta neste ano, o que mantém a expectativa de redução da Selic em 0,25 ponto na reunião da próxima quarta-feira como majoritária.

Dos 42 economistas ouvidos pelo Valor, 37 esperam que o Copom faça a última redução da Selic neste ciclo e leve a taxa para 6,25%. Nesse grupo, todos esperam que o juro permaneça nesse nível até o fim do ano. Os outros cinco acreditam que o aumento das incertezas no cenário deve levar o BC a já encerrar o ciclo, com a taxa de 6,50%, sendo que dois - MacroSector e Ativa - contam com uma elevação da Selic ainda em 2018.

Um dos profissionais que revisou a expectativa nos últimos dias foi David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merryll Lynch (BofA), que alterou na semana passada seu cenário para política monetária, depois de elevar sua projeção para o câmbio, de R$ 3,32 para R$ 3,52 no fim deste ano. Agora, a expectativa é de que o juro permaneça em 6,5% até o fim deste ano e, em 2019, volte a subir, até alcançar 7,75%.

Para Beker, a "discussão agora não é mais se o cenário externo vai piorar, e sim o quanto e em qual intensidade vai piorar adiante." Embora as questões externas representem a força dominante neste momento, o economista considera que o cenário eleitoral deve ganhar importância daqui para frente. 

João Mascolo, do Insper, também acredita que é hora de o BC parar de cortar os juros porque o "cenário externo mudou, fortalecendo o dólar globalmente". Agora, o economista vê a cotação em R$ 3,50 no fim deste ano, o que deve elevar a inflação para 3,8% este ano e para 4,3% em 2019.

"O cenário externo se tornou menos benigno", diz Mascolo. Ele explica que a pressão sobre os juros americanos, que tem provocado forte ajuste nos preços dos ativos globais, vem de três fontes: o aumento do déficit público nos EUA, exigindo uma maior oferta de títulos; a redução do balancete do Fed, que também provoca a maior oferta de títulos; e o aumento da inflação, que justifica a elevação do juro básico.

Já para Guilherme Foureaux, sócio da MRJ Marejo, embora a perspectiva seja de um dólar mais alto, há razões para acreditar que a inflação permanecerá baixa. E isso permite que o BC faça mais um corte da Selic, de 0,25 ponto na reunião de maio. Mas, então, feche a porta para reduções adicionais. "Na nossa avaliação o câmbio terá impacto relevante na política monetária nos próximos meses, e, de alguma forma, já está tendo impacto para a reunião de junho", afirma. Em seu cenário, o juro fica inalterado até o fim deste ano e volta a subir em 2019, até atingir 8,25%. "Mas, caso o câmbio siga desvalorizando em uma velocidade alta e o Banco Central tenha que usar mais instrumentos, não faz sentido pensar em mais alívio monetário. Pelo contrário, se esse for o cenário, é provável que o Banco Central tenha que subir juros antes do projetado" diz.

Embora também acredite que o câmbio deva se desvalorizar com mais intensidade este ano, o chefe da Superintendência de Economia da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, não acredita que esse movimento vá alterar o plano de voo da política monetária. A SulAmérica trabalha com um dólar a R$ 3,55 no fim deste ano e a R$ 3,63 no fim de 2019, mas isso não afeta suas previsões de inflação, que são de 3,42% neste ano e de 4% no próximo. A pressão é contrabalançada pela fraqueza da economia, atenuando o impacto sobre os preços. De todo modo, o economista acredita que o Copom deve explicitar o fim do ciclo de alívio monetário na próxima reunião por causa da defasagem com que a política monetária afeta atividade e inflação - as decisões a partir de junho começam impactar com mais intensidade 2019 do que 2018 - e também em função da incerteza em relação ao cenário político doméstico.


Fonte: Valor - Finanças, por Angela Bittencourt e Lucinda Pinto , 14/05/2018