O setor de revestimentos cerâmicos não conseguirá repassar, para os preços dos produtos, o impacto em seus custos da forte alta do gás natural da Petrobras anunciada ontem. A estatal vai elevar em 39%, a partir de 1º de maio, os preços em reais por m3 de gás natural para as distribuidoras. O insumo responde pelo maior custo de produção de revestimentos cerâmicos, com participação de 30% do total.

Segundo Manfredo Gouvea Jr., presidente do conselho de administração da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos, Louças Sanitárias e Congêneres (Anfacer), tem havido “escalada de alta” do preço do gás desde o fim de 2020. “O setor não tem conseguido repassar os aumentos de custos e vem absorvendo parte da pressão”, disse Gouvea ao Valor.

Ele defende que os preços do gás, no Brasil, sejam compatíveis com os praticados fora do país.

Outras matérias-primas também vêm pressionando os custos de produção do setor, como insumos para polimento de peças cerâmicas importados da China, fortemente impactados pelo câmbio. “Há sinais que haverá aumento da energia. Também sentimos efeitos do aumento dos combustíveis no frete rodoviário e da alta de embalagens”, diz o representante setorial.

No início do ano, a Anfacer projetou que, em um cenário otimista, o setor poderia elevar suas vendas em 5,2%, em 2021, ante os 920 milhões de m2 do ano passado. A estimativa inclui crescimento de 4,3% da comercialização no mercado interno e expansão de 10,5% das exportações. Conforme os desdobramentos da crise sanitária decorrente da pandemia de covid-19, a entidade poderá revisar projeções.

“Em janeiro e fevereiro, tivemos bons números, acompanhando as expectativas”, diz Gouvea. Os dados de março não estão contabilizados ainda, mas a sinalização é que houve retração ante o ritmo que vinha ocorrendo, segundo o presidente do conselho, devido ao fechamento das lojas de materiais de construção em alguns estados, caso de São Paulo, o maior consumidor.

O representante setorial afirma que é preciso se discutir a concessão de auxílio emergencial com valor maior do que o atual e mais próximo ao do ano passado. “Há necessidade também de se manter a taxa básica de juros em patamares baixos para que a indústria de construção continue ativa”, afirma.

Em 2020, as vendas totais de revestimentos cerâmicos cresceram 2,7%. Enquanto a comercialização no mercado doméstico aumentou 3,8%, as exportações caíram 5,7%. Em abril e maio, com a retração das vendas internas no início da pandemia de covid-19, o setor chegou a suspender 94% da produção. A retomada da demanda fez, porém, que as fábricas operassem a 100% de capacidade no segundo semestre.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Chiara Quintão — De São Paulo, 06/04/2021