As empresas brasileiras de capital aberto atravessaram uma das piores crises da história com seus balanços inteiros. Houve vítimas graves, mas tomada em conjunto a situação, em dezembro, era melhor do que no fim de 2019, antes do início da pandemia que já matou mais de 2,8 milhões de pessoas no mundo e continua a ser uma ameaça à economia, principalmente dos países mais pobres.

A amostra de 339 empresas compilada pelo Valor Data mostra que, no geral, elas estão preparadas, pelo menos em termos financeiros, para enfrentar a nova e mais dura onda da pandemia. O quarto trimestre já havia sido excelente e janeiro e fevereiro mantiveram o ritmo, até que a piora da crise em março trouxe novamente a incerteza sobre a volta à normalidade.

Juntas, essas companhias somaram R$ 2,07 trilhões em vendas em 2020, R$ 240 bilhões de lucro operacional e R$ 60 bilhões de lucro líquido (ver tabela). Petrobras e Vale foram excluídas para reduzir as distorções - só no quarto trimestre, a estatal teve, sozinha, lucro de R$ 59,89 bilhões, o equivalente ao de todas outras empresas no ano.

Exportações, produtos com preços dolarizados e auxílio emergencial do governo, que sustentou o consumo interno, foram fatores que deram a essas companhias de setores diversos o impulso necessário para fechar 2020 com uma receita de vendas 10% maior do que a obtida em 2019, batendo com folga a inflação de 4,52% do ano passado. O Valor acompanha, desde 2000, os resultados das companhias com ações em bolsa e é possível dizer que, com certa regularidade, essas empresas não costumam ficar longe desses dois dígitos, sem considerar a inflação. No pior momento, em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff e de queda de 3,6% no Produto Interno Bruto (PIB), as vendas da amostra de empresas da época cresceram 1,5%.

Mas não é só a sustentação das vendas que surpreende. As empresas mantiveram custos e despesas sob controle, o que resultou num lucro operacional (antes dos efeitos dos juros e câmbio sobre as dívidas) 15% maior, um claro sinal de vigor. É claro que há um custo social nessa conta - para que ela fechasse, pessoas perderam o emprego. A rede de restaurantes IMC, que atua num dos setores mais atingidos pela crise com marcas como Frango Assado e Pizza Hut, fechou 2020 com 2 mil funcionários a menos no Brasil em relação a 2019, um corte de 40%. “Foi certamente o ano mais desafiador na história da IMC”, diz a mensagem da administração que acompanha os números da empresa divulgados no fim de março. “O advento da pandemia da Covid-19 e as restrições adotadas pelos governos em cada uma das regiões onde operamos afetaram, significativamente, os nossos negócios.”

Foi preciso buscar dinheiro para reforçar o balanço, o que fez a dívida financeira bruta crescer 19%, para R$ 1,20 trilhão. Mas, se for considerado o caixa, o valor da dívida (líquida) cai para R$ 680 bilhões, aumento de 3,5%.

A preservação do caixa foi vital para manter a saúde financeira. Embora não se soubesse com exatidão os efeitos da pandemia e por quanto tempo eles persistiriam, era possível antever as dificuldades à frente, mesmo para as empresas que não foram tão fortemente atingidas pelas medidas de isolamento social. Redução da oferta de insumos e aumento dos preços de matéria-prima começaram a ser sentidos no terceiro trimestre, quando houve uma retomada do consumo antes do esperado. A situação não mudou no último trimestre do ano e continua a preocupar com o agravamento da pandemia a partir de março.

A Eucatex, que fabrica chapas de madeira, sentiu a falta e o atraso no recebimento de alguns materiais, além de uma pressão nos custos que, segundo a administração da companhia, “continua forte”. Num caso semelhante, a Portobello, que fabrica revestimentos cerâmicos, enfrentou problemas com suprimentos no fim de 2020 devido à falta de itens como embalagens e ao aumento de preços como o do gás. “Isso nos afetou a partir de janeiro, mas, mesmo assim, conseguimos colocar no preço os custos diretos”, disse o presidente da empresa, Mauro do Valle, em teleconferência com analistas.

A M. Dias Branco, dona de marcas de massas e biscoitos Adria, Piraquê e Vitarella, decidiu reajustar os preços em até 40% no fim de 2020 por causa do aumento dos preços das principais matérias-primas usadas na produção, como trigo e óleo de palma. Para os próximos meses, a empresa não descarta novos ajustes, apesar do cenário de maior incerteza no consumo e do início de ano mais fraco.

O Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) acumula alta de 8,26% no ano e de 31,10% em 12 meses, segundo dados divulgados na semana passada. Em março de 2020, o índice havia subido 1,24% e acumulava alta de 6,81% em 12 meses. “Todos os índices componentes do IGP-M registraram aceleração. No índice ao produtor, os aumentos recentes dos preços das matérias-primas continuam a influenciar a aceleração de bens intermediários (4,67% para 6,33%) e de bens finais (1,25% para 2,50%)”, segundo André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV.

Apesar de não estarem imunes às consequências da pandemia, alguns setores recuperaram-se rapidamente e puxaram para cima o resultado da amostra. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) “encerrou o ano de maneira vitoriosa”, de acordo com o relatório de administração. A fórmula do sucesso foi a maior procura por minério de ferro, principalmente da China, aliada à desvalorização do real e sucessivos reajustes de preços no mercado interno.

A concorrente Usiminas destacou em seu relatório dados do Instituto Aço Brasil que mostram um ano “surpreendente para todos” e do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda) com vendas de aços planos no segundo semestre do ano passado em alta de 23% em relação a 2019, “reforçando a dinâmica de queda seguida de forte recuperação”.

Mas, para os negócios que dependem da presença do consumidor, o ano foi o desastre imaginado. O varejo de moda, impactado pelas medidas de isolamento mais rígidas ao fim do quarto trimestre, já enfrenta dificuldades para arcar com os compromissos. A Lojas Renner, por exemplo, renegociou aluguéis e salários. As medidas de alívio nas contas, porém, provavelmente serão menos robustas em 2021, mesmo com o endurecimento das medidas de restrição.

Os incentivos ao varejo também são uma preocupação da Cia. Hering: os alugueis tiveram isenções em março e abril do ano passado, mas foram recompostos à medida em que os planos de reabertura econômica avançaram, mesmo com a demanda ainda fraca.

No setor aéreo, o resultado foi ainda pior. Com quedas drásticas no número de passageiros, Azul e Gol terminaram o ano com prejuízos bilionários. Elas sustentam que têm reservas para enfrentar a nova onda e põe fé no avanço da vacinação. Segundo Paulo Kakinoff, presidente da Gol, houve um aumento substancial nas vendas durante o quarto trimestre, à medida que os passageiros voltaram a voar. “Sabemos que a recuperação não será linear, mas isso indica a rapidez com que a demanda pode retornar com o avanço no processo de vacinação no Brasil.”


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Nelson Niero, Rita Azevedo e Ana Luiza de Carvalho — De São Paulo, 05/04/2021