O trimestre que marcou o início de um novo ciclo de alta de juros no Brasil e o recrudescimento da pandemia foi de perdas para os ativos considerados de maior risco, como ações e títulos públicos longos. A liderança no ranking de aplicações financeiras ficou com o dólar, com valorização de 8,49% desde janeiro.

Num cenário ainda de pouca visibilidade no Brasil, gestores de recursos mantém a preferência por jogar na defesa. Para a pessoa física, ainda veem valor no Tesouro IPCA, uma salvaguarda se a inflação não for domada com o aumento de juros. Em ações, a opção é por empresas com exposição ao ciclo global de crescimento. No câmbio, a recomendação é ter cuidado com posição comprada em dólar, enquanto no front internacional a bolsa americana é considerada o melhor ativo.

Gestores jogam na defesa: na bolsa preferem ações ligadas a commodities e na renda fixa o Tesouro IPCA

Mas já há quem comece a se posicionar para o “trade da reabertura” da economia, à medida que a vacinação avance por aqui, buscando exposição às ações de empresas mais afetadas pela pandemia. (leia na página C3)

A reação do Ibovespa em março, com ganhos de 6%, foi insuficiente para anular as quedas observadas em janeiro e fevereiro. No acumulado do ano, a desvalorização chega a 2%. Nos índices setoriais da bolsa, o resultado mais recente indica que investidores estão buscando teses específicas, que tinham ficado para trás, como ações do setor de construção, o que garantiu alta de 9,74% para o Imob em março (no ano, ainda perde 8,29%), ou boas pagadoras de proventos - o referencial de dividendos subiu 7,57% no mês passado.

A volatilidade que acompanhou a cena política e a piora da pandemia de covid-19 no Brasil não poupou papéis de renda fixa de prazos mais longos. O IMA-B 5 +, índice da Anbima que representa uma cesta de títulos atrelados à inflação com vencimento acima de cinco anos, perdeu 5,10% no trimestre.

A crise sanitária, com o consequente enfraquecimento do governo, e o Congresso adotando um tom mais oportunista a favor do gasto público são ingredientes que vão pesar sobre os ativos nos próximos meses, na avaliação de Marcos Mollica, gestor do Opportunity. “Ainda vamos ter uma ascendente de notícias muito ruins, com aumento do número de mortes e casos [de covid-19]. É difícil ficar animado com Brasil, por enquanto”, afirma.

Para ele, as articulações em torno do Orçamento, com capacidade limitada para o Estado cortar despesas, fragilizam ainda mais o país. “O Brasil não tem credibilidade. Apesar do momento excepcional da economia global, possivelmente com o maior crescimento sincronizado que se viu na história, o país pode perder esse momento, ficar de fora do otimismo global.”

Por ora, diz, a percepção é que nos Estados Unidos o ritmo de imunização pode surpreender com uma certa volta à normalidade já nas próximas semanas. É por essa razão que o gestor acha que o melhor posicionamento agora é na bolsa americana. E à medida que a vacinação avance ao redor do mundo, outros mercados tendem a performar bem.

O ciclo favorável de commodities reflete essa recuperação da atividade global, enquanto o Brasil ainda derrapa, segundo Mollica. “No lado da bolsa, papéis mais expostos ao ciclo global, como Petrobras, Vale e Suzano, podem ser favorecidos. Mas eu ficaria de olho em exportadoras de uma forma mais ampla. Não esperar virar o mercado, porque ele é que vai na frente, mas entrar quando tiver o mínimo de visibilidade de que o pior ficou para trás”, diz.

A contrapartida ao ambiente externo mais benigno fica por conta de uma recuperação que possa ser muito rápida a ponto de as taxas de juros longas subirem ainda mais nos EUA. Na visão de Mollica, esse cenário favorece um dólar mais forte em comparação a outras moedas de reserva, como iene, euro ou franco suíço. Já em relação às divisas emergentes, o gestor diz que é preciso ser mais seletivo, porque nem todas se beneficiam da aceleração do crescimento global.

No nível atual, Mollica acha complicado ficar comprado em dólar contra o real, mas, se o Brasil partir para a desorganização total, a tendência é a moeda americana “explodir”, apesar de “já ter muita coisa ruim no preço”.

A sinalização do Federal Reserve (Fed, banco central americano) de que “não vai frear o carro antes de a economia andar”, mostrando pouco incômodo com a alta das taxas longas dos Treasuries, seria em tese favorável aos ativos brasileiros, num momento de commodities em alta, diz Cristiano Pinelli, sócio da Rio Gestão. Só que a gestão da pandemia deixou a desejar.

“O Brasil talvez tenha sido o país que mais bateu cabeça, com quatro ministros da Saúde. Politizando o que deveria ser feito, atrasou muito o processo. Agora, lidera o ranking de casos e mortes, é uma situação muito assustadora. A boa notícia é que tem um dos melhores sistemas de vacinação do mundo e a vacina vai chegar”, diz. “A dúvida é o quanto [a pandemia] ainda vai impactar no político para que se tenha algum tipo de mudança de comportamento do governo e do Congresso do lado fiscal.”

Na visão de Pinelli, os próximos 50 dias ainda vão mostrar o pico de casos e mortes, antes de melhorar. Para completar, a PEC emergencial demorou e tem antecipado a briga para a eleição à presidência em 2022. “Os ativos estão a um preço relativamente justo para o que aconteceu”, afirma. “O dólar pode estar alto, mas tem o problema fiscal, o governo gastou muito dinheiro na pandemia e não sinaliza ao mercado que quer mudar. E dar dinheiro [à população], de alguma forma, resolve o problema humanitário e o eleitoral.”

Apesar da indefinição fiscal, ele lembra que a bolsa não é uma categoria única e que o Ibovespa é em parte bem defendido pelas empresas ligadas a commodities. Na carteira, há empresas que se beneficiam de receitas no exterior, como Gerdau ou Vale, que está num dos seus melhores múltiplos, segundo André Querne, gestor da Rio Gestão.

O setor de frigoríficos está representado por Marfrig e JBS, essa última descontada, mas que pode ter uma avaliação melhor quando a subsidiária americana for listada. Petrobras, mesmo após a interferência do governo, fez reajustes nos combustíveis antes da troca de comando e o risco de descasamento com as cotações do petróleo é menor hoje, segundo Querne.

O kit de incertezas para o Brasil provocou uma forte correção dos ativos no trimestre, mas não parece haver um cenário de ruptura pela frente, diz Mário Schalch, sócio-gestor da Neo Investimentos. “O câmbio a R$ 5,75 [por dólar], tirando poucos momentos em 2002, corrigido pela inflação, é o mais alto em três décadas”, cita. Esse movimento, prossegue, abriu oportunidades até para “os viúvos da renda fixa”. “Quando olho para a NTN-B com vencimento em 2024, pagando IPCA + 3%, não digo que seja excelente, por si só não é capaz de compor uma carteira inteira como no passado, mas se olho 12 meses atrás, com juro real negativo em 4%, 5%, é incomparável o retorno três anos à frente.”

O gestor vê chances de o real se valorizar em relação a outras moedas emergentes, à medida que a Selic seja ajustada. “É difícil identificar o timing, mas a direção é de valorização. [Com dólar] a R$ 5,70, o Brasil é um país barato.”

Mollica, do Opportunity, estima que o ajuste monetário vá até 6%, 6,5% ao ano, dos 2,75% atuais, com o BC dosando o passo a partir da avaliação do impacto da pandemia na atividade e na inflação, a fim de evitar contaminação para os índices adiante, principalmente em 2022. Ele diz até achar os prefixados atrativos, com prêmio, mas muito relacionado à covid-19. Prefere a NTN-B que “oferece defesa num cenário inflacionário que pode aparecer se a desorganização [política e econômica] continuar”.

Já a Novus voltou a se posicionar em taxas prefixadas, porque considera que o mercado embute uma alta de juros acima do que o BC vai fazer, diz o sócio Luiz Eduardo Portella. Apenas quando a Selic estiver na casa dos 4% ou 5% ao ano é que ele acha que o estrangeiro vai desmontar suas posições compradas em dólar no mercado futuro - ele cita haver o equivalente a US$ 38 bilhões na B3. “Só a partir daí é que o Brasil fica igual a outros emergentes, não faz sentido usar o real como moeda de funding”, diz. “O real parece fora do lugar, mas o diagnóstico está no diferencial de juros.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Adriana Cotias — De São Paulo, 01/04/2021