Influenciado por alimentos e mensalidades escolares, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) superou o teto das estimativas de analistas ao avançar 0,43% em fevereiro, de 0,32% em janeiro. O clima ruim para o plantio de alimentos in natura - devido às chuvas generalizadas - piorou preços além do esperado, mas não o suficiente para mudar a percepção de inflação controlada em 2019.

Conforme divulgado ontem pelo IBGE, os preços dos alimentos para consumo em casa avançaram 1,24% em fevereiro, acima do 0,97% do mês anterior. A alta foi puxada por itens como feijão carioca (51,58%) e batata-inglesa (25,21%). O resultado foi explicado pela quebra da safra do feijão no Paraná, devido às chuvas.

 

"Não esperávamos que os preços dos alimentos arrefecessem, mas o resultado neste caso veio fora do normal, por causa dessa questão da grande quebra de safra no Paraná", disse Yan Cattani, economista da consultoria Pezco, que revisou marginalmente sua projeção para o IPCA de 2019, de 3,74% para 3,80%.

Além dos alimentos, o IPCA foi pressionado em fevereiro pelos típicos reajustes de mensalidades de educação: colégios, faculdades e cursos. Em média, ficaram 3,53% mais caras, impactando em 0,17 ponto percentual o IPCA do mês. Mas essa alta foi a menos intensa desde 2008.

De acordo com Fernando Gonçalves, gerente de Índices de Preços do IBGE, as instituições de ensino têm dificuldade de repassar custos diante do orçamento apertado da população. "Existe o receio de reajustar as mensalidades e perder alunos, numa época em que o poder de compra da população segue limitado."

Desta forma, o setor de educação sintetiza o comportamento dos preços de serviços como um todo. Após subir por três meses consecutivos e acender um sinal de alerta em analistas, a inflação de serviços acumulada em 12 meses recuou para 3,35% em fevereiro, de 3,71% em janeiro, com ajuda também da queda de preço de passagens aéreas.

O desempenho dos serviços foi uma das surpresas positivas do IPCA de fevereiro, diz Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs para mercados emergentes. O núcleo dos serviços desacelerou de 0,71% em janeiro para 0,17% em fevereiro, puxado pela queda média de 0,04% nos preços de restaurantes e lanchonetes.

"O ambiente inflacionário permanece confortável, incluindo seu núcleo. A inflação de preços livres está benigna e abaixo da meta, em 3,25%. A média dos sete núcleos está confortável em 3,01%", listou Ramos, em relatório a clientes, acrescentando que o cenário deixa o Banco Central (BC) confortável para manter a Selic em 6,50% ao ano.

Essa visão sobre a condução da política monetária, porém, não é consenso no mercado. Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, o IPCA de ontem evidencia que a taxa de juros encontra-se acima da taxa "neutra", com a atividade andando a 1,1% há dois anos e a taxa de desemprego acima de 12%. Logo, o espaço para queda da Selic é "evidente" e não depende da tramitação da reforma da Previdência. O Fator projeta queda de 0,5 ponto percentual da Selic até o fim do ano, a 6%.

Outras medidas que buscam eliminar ou reduzir a influência dos itens mais voláteis também mostraram-se comportadas. O núcleo IPCA EX2, que concentra alimentos, bens industriais e serviços mais sensíveis à atividade econômica, foi de 0,29% em janeiro para 0,12% em fevereiro. Em 12 meses, houve ligeira alta, de 2,5% para 2,55%.

Outros grupos de preços mostraram um comportamento mais benigno, como artigos de residência (de +0,32% em janeiro para +0,20% em fevereiro), transporte (+0,02% para -0,34%), despesas pessoais (de +0,61% para +0,18%) e comunicação (de 0,04% para estabilidade).

Fábio Romão, economista da LCA Consultores, concorda que a aceleração de fevereiro foi resultado de efeitos pontuais de itens voláteis, sem exercer pressão adicional sobre o resultado do ano. Por esses motivos, a estimativa da LCA para o IPCA fechado do ano permaneceu em 3,9%, ligeiramente acima de 2018 (3,75%).

Nos cálculos da LCA, o IPCA deve voltar a acelerar em março, para 0,53%, refletindo reajuste dos combustíveis. "Após quatro meses em queda, projetamos altas de gasolina e de etanol em março, na esteira das consecutivas altas anunciadas pela Petrobras ", disse Romão. A MCM Consultores também vê esse efeito e projeta alta de 0,45% do IPCA em março.

Se confirmadas as projeções para o próximo mês, a inflação acumulada em 12 meses deverá convergir para o centro da meta oficial, de 4,25% neste ano - a meta tem margem de 1,5 ponto percentual, para mais ou para menos. Para a MCM, o índice chegará a 4,27%. Depois disso, o IPCA deve ceder para algo próximo de 3,9% no fechamento do ano.


Fonte: Valor, por Bruno Villas Bôas e Hugo Passarelli - do Rio e São Paulo,