Consolidada a perspectiva de que a atividade iniciou o ano em ritmo ainda fraco, mais consultorias e instituições financeiras têm revisado suas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2019. Um grupo crescente de analistas vê uma expansão em torno de 2%. Para alguns, o risco inclusive é de que o número seja inferior a esse, embora haja economistas que ainda projetam um avanço entre 2,3% e 2,5%.

A A.C. Pastore & Associados reduziu a projeção de crescimento do PIB neste ano de 2,4% para 2%, com risco de o desempenho ser "um pouco mais baixo". Em relatório divulgado ontem, a consultoria justifica a estimativa devido à ausência de fatores que possam aumentar a demanda neste ano.

"A lenta melhora no mercado de trabalho inibe o crescimento do consumo das famílias, e não há nenhuma contribuição vinda do consumo do governo." A única força propulsora da ampliação da demanda seria a formação bruta de capital fixo (FBCF, a medida para investimento dentro do PIB), com crescimento previsto de 4% em 2019, após alta de 4,1% em 2018.

Também ontem, o Banco MUFG Brasil informou que baixou sua estimativa para 2019 de 2,5% para 2%. Segundo os economistas Carlos Pedroso e Mauricio Nakahodo, a menor herança estatística deixada pelo PIB do quarto trimestre e o ritmo da recuperação da atividade abaixo do esperado levaram à revisão.

"No quarto trimestre de 2018, o PIB cresceu decepcionante 0,1%, mostrando dificuldades para acelerar o ritmo de retomada", observam os economistas, em relatório. "Esse resultado significa um carregamento estatístico abaixo do previsto para o PIB de 2019, de uma expectativa de 0,7% para 0,4%."

 

 

O Bank of America (BofA) Merrill Lynch reduziu ontem mais uma vez a sua projeção de crescimento para a economia brasileira em 2019, desta vez de 3% para 2,4%. Há duas semanas, a instituição havia cortado a estimativa de 3,5% para 3%. "Com uma recuperação mais fraca do que a esperada em 2018, a economia parece lenta em se ajustar depois de uma série de choques", diz o relatório assinado por David Beker e Ana Madeira.

Ao enumerar os choques, os dois analistas destacam a recessão grave e profunda, que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, a mudança estrutural nas taxas de empréstimo do BNDES e as eleições presidenciais do ano passado. Na visão de Beker e de Ana, isso tem levado a uma retomada mais lenta em alguns variáveis macroeconômicas como o crédito e o investimento. Além disso, o setor externo tem sido um peso maior do que se previa, afirmam eles.

Ainda que em ritmo mais lento, a mediana das expectativas do mercado coletadas pelo Banco Central (BC) no boletim Focus mostra movimento semelhante. Ontem, houve redução de 2,3% para 2,28% na estimativa de alta do PIB neste ano, a segunda consecutiva - na semana anterior, caíra de 2,48% para 2,3%.

A economia brasileira cresceu 1,1% em 2018 após evolução de 0,1% no quarto trimestre, frente ao terceiro, na série com ajuste sazonal. Após a divulgação do dado oficial, algumas consultorias e instituições financeiras revisaram para baixo seus números para 2019.

O Banco Fibra foi um dos que reduziram imediatamente sua estimativa, de 2,5% para 1,7%. Segundo a instituição, a revisão se deu após a incorporação de indicadores antecedentes mais recentes ao modelo utilizado para as projeções. Para 2020, a estimativa para expansão da atividade foi mantida em 3% pelo banco.

Também pouco após a divulgação das contas nacionais do quarto trimestre, o Santander cortou sua projeção para o crescimento deste ano, de 3% para 2,3%. Entre as razões citadas, a equipe do banco cita a baixa herança estatística, somada à perspectiva de desaceleração das grandes economias mundiais, especialmente China e as europeias, além do quadro recessivo da vizinha Argentina, que impacta diretamente o setor automotivo brasileiro.

Na sexta-feira, o Banco Safra revisou a sua projeção para o crescimento deste ano, de 2,3% para 2%. Foi a segunda revisão feita pela instituição financeira em menos de um mês. Na segunda quinzena de fevereiro, o banco já havia rebaixado a projeção em relação aos 2,7% que tinha antes. O Safra destaca que novos cálculos feitos por sua equipe econômica mostram que a política monetária não está "tão estimulativa" quanto pensado anteriormente. Além disso, há "uma frustração com os dados recentes" de atividade. Entre os componentes, a projeção para o crescimento do consumo das famílias caiu de 2% para 1,9%, "em meio aos indicativos um pouco mais fracos do mercado de trabalho". Já a estimativa para os investimentos desceu de 5% para 4%, "o que representaria uma retomada ainda mais lenta após a contração ininterrupta entre 2014 e 2017, quando houve queda acumulada de mais de 30%".

Ainda no começo do mês passado, o Itaú Unibanco revisou de 2,5% para 2% sua expectativa para a evolução da atividade econômica neste ano. A mudança foi motivada por uma incorporação de dados de atividade mais fracos, condições de oferta menos favoráveis nos setores agrícola e energético, além da perspectiva de um crescimento global menor.

Se as expectativas para 2019 ainda não encontraram o fundo do poço, a retomada parece estar ficando mesmo para 2020, na visão dos analistas. Na pesquisa Focus, o consenso de mercado para 2020 teve sua quarta elevação consecutiva, agora de 2,7% para 2,8%. Há um mês, estava em 2,5%.


Fonte: Valor, por Estevão Taiar, Felipe Frisch, Hugo Passarelli, Thais Carrança e Sergio Lamucci - de São Paulo,