O comportamento da inflação no começo deste ano segue amplamente favorável, com pressões poucos disseminadas sobre os preços. Medidas que procuram retratar a tendência de curto prazo dos indicadores mostram variações muito baixas. É o caso das médias anualizadas dos últimos três  meses dos serviços e dos núcleos, que ficaram confortavelmente abaixo de 3% em fevereiro, na série livre de influências sazonais.

A alta de 0,32% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no mês passado confirmou a tendência benigna da inflação, levando alguns bancos e consultorias a revisar para baixo as projeções para o ano. A LCA Consultores reduziu a sua estimativa de 4% para 3,8%, o Bradesco, de 3,8% para 3,5% e o UBS, de 3,7% para 3,6%.

A grande ociosidade na economia, a melhora ainda bastante gradual do mercado de trabalho e o impacto favorável da baixa inflação do ano passado contribuem para o indicador permanecer em níveis modestos. Também continua a ajudar o resultado das cotações de alimentos e bebidas, que tiveram deflação de 0,33% em fevereiro.

As notícias favoráveis não se restringem à inflação desses produtos. Os núcleos, que buscam eliminar ou reduzir a influência dos itens mais voláteis, estão muito tranquilos, especialmente quando se analisa o resultado anualizado dos últimos três meses, com ajuste sazonal. É uma maneira de avaliar a tendência recente dos preços, escapando da volatilidade excessiva do dado mensal.

Nesse base de comparação, a média em fevereiro de cinco núcleos calculados pela MCM Consultores Associados ficou em apenas 2,15%. Nos três meses até fevereiro de 2017, esse número ficou em 3,88% e até fevereiro de 2016, em 8,35%.

A inflação subjacente de serviços, que exclui os grupos de serviços domésticos, turismo, cursos e comunicação, também exibe um quadro dos mais benignos. A média anualizada nos três meses até fevereiro ficou em apenas 2,12%, também na série que desconsidera efeitos sazonais da MCM. Essa medida da inflação de serviços é acompanhada com grande atenção pelos analistas por concentrar os itens mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária.

Para Fabio Romão, economista da LCA, a geração de empregos concentrada em grande parte em vagas no setor informal e por conta própria ajuda a explicar a baixa inflação subjacente de serviços. Ele destaca ainda um fator que não "chancela grandes reajustes de preços" neste ano: o menor reajuste da renda esperada para 2018, descontada a inflação. Isso ocorrerá por dois motivos, segundo Romão. O primeiro é o pequeno reajuste do salário mínimo deste ano, de apenas 1,81%. O segundo é a expectativa de alguma aceleração dos índices de preços em 12 meses, ainda que deva ser modesta. Nas contas de Romão, a renda deve avançar 1,4% acima da inflação neste ano, abaixo dos 2,3% de 2017.

Nesse ambiente de preços domados, Romão reduziu a estimativa para o IPCA neste ano de 4% para 3,8%. "A intensidade com a qual os alimentos estão perdendo fôlego, os resultados benignos espraiados por outros itens e uma condição climática mais favorável do que a esperada nos fizeram rebaixar mais uma vez o IPCA para 2018", diz ele. Em 2017, o indicador ficou em 2,95%, abaixo do piso da banda de tolerância, de 3%. Nos 12 meses até fevereiro, o IPCA segue inferior a 3%, acumulando alta de apenas 2,84%.

Em relatório divulgado na sexta-feira, o Bradesco cortou a sua projeção para o indicador de 3,8% para 3,5%. "As informações mais recentes mostraram que não são apenas os preços de alimentos que têm contribuído para a queda recente dos índices, mas também os núcleos, afirmam os economistas do banco.

O baixo índice de difusão foi uma das várias boas notícias do IPCA de fevereiro. O indicador, que mede o percentual de itens em alta no mês, ficou em 48,5%, inferior aos 57,9% de janeiro e aos 50,9% de fevereiro de 2017, segundo a MCM - número significativamente abaixo da média histórica, de 62,1%.

O grupo de educação, por sua vez, teve um aumento bem menor do que em anos anteriores, subindo 3,89%. A baixa inflação de 2017 colaborou para um reajuste mais baixo, assim como o fato de que as escolas têm menor poder de barganha para elevar as mensalidades, dado o momento ainda delicado do mercado de trabalho. No mesmo mês do ano passado, o grupo de educação subiu 5,09%. "A alta de 3,89% foi a menor taxa para educação em meses de fevereiro desde 2008", destaca Romão.

Para vários analistas, essa inflação benigna abre espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir mais uma vez os juros neste mês, num momento em que também surgiram algumas dúvidas sobre a intensidade da recuperação da economia. LCA e Bradesco, por exemplo, projetam um corte da Selic de 6,75% para 6,5% ao ano.


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Sergio Lamucci, 12/03/2018