Se a inflação seguir baixa como em janeiro e não houver uma deterioração no balanço de riscos, o Banco Central vai cortar os juros em 0,25 pontos percentual na sua reunião de março. Esse é o "guidance" do comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgado ontem, e o Banco Central (BC) vai segui-lo.

A melhor maneira de ler o IPCA de janeiro é pelos próprios parâmetros destacados pelo BC. O índice veio bem abaixo do 0,53% projetado pelo Relatório de Inflação de dezembro. Esse desvio é suficiente para fazer o IPCA de 2018, então projetada em 4,2%, cair abaixo de 4%.

O BC também tem acompanhado, com muita atenção, os núcleos de inflação, que nos documentos oficiais descreve como confortáveis e baixos. Na nomenclatura do BC, núcleos confortáveis são aqueles consistentes com a convergência e o cumprimento da meta de inflação de 2018, fixada em 4,5%. 

Núcleos baixos são aqueles que apontam uma certa perpetuação da inflação perto do piso da meta de inflação, de 3%, nível que obrigaria o BC a escrever uma carta aberta pelo segundo ano seguido explicando porque ficou aquém dos objetivos.

Cálculos feitos pelo Banco Safra mostram que os núcleos de janeiro, pelos critérios do BC, são baixos. É o caso do núcleo por exclusão (o chamado EX1), que aponta recuo de 0,03% no mês. E também o de médias aparadas, com 0,19%, abaixo do valor de referência no mês para o piso da meta, em redor de 0,25%.

Os dados não deixam dúvidas: em janeiro, houve uma surpresa inflacionária que apoia a tese de um corte mais forte de juro. Mas, para de fato cortar mais os juros, o BC provavelmente vai esperar confirmação desse cenário por novos dados.

Em novembro, é bom lembrar, os núcleos de inflação vieram muito baixos, levando o BC a debater em reunião no início de dezembro se a trajetória subjacente da inflação era consistente com o cumprimento da meta de inflação.

Quando o IPCA de dezembro foi divulgado, porém, o BC passou a ter mais confiança na sua tese de que a inflação caminha para o centro da meta. Essa confiança foi um dos fatores que levaram o BC a dizer que, se o cenário básico para a inflação seguir se confirmando, o ciclo de cortes se encerrou em fevereiro. O dado de janeiro reabre o jogo.

O BC também comunicou que acompanha o balanço de riscos. A inflação mais baixa é um sinal de que os riscos do lado positivo têm se materializado. Será preciso acompanhar a evolução do lado negativo.

O BC não deixará de baixar os juros em março no caso de a reforma da Previdência não ser aprovada. A autoridade tem destacado que não há uma relação binária e mecânica entre um evento e outro.

O que o BC está de olho é mais na reação dos mercados a uma eventual frustração nas reformas. E também na evolução do cenário internacional, que tem funcionado como uma espécie de anestésico à falta de progressos na  tramitação da reforma. Se a inflação seguir baixa e os riscos negativos não se materializarem, o Copom seguirá o que disse na sua comunicação condicional e cortará os juros em 0,25 ponto percentual.


Fonte: Valor - Macroeconomia, por Alex Ribeiro , 09/02/2018