Após conseguir interromper, em 2019, quatro anos de quedas consecutivas nas vendas, a indústria do cimento no país espera ter, neste ano, crescimento semelhante ao do ano passado, quando o volume comercializado do insumo aumentou 3,5%, na comparação anual, para 54,5 milhões de toneladas. A tendência é que a demanda continue a ser puxada por edificações residenciais, mas empreendimentos residenciais e industriais devem ganhar participação, e infraestrutura apresentará um início de recuperação.

Embora o patamar de alta fique em linha com o do ano passado, o presidente do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), Paulo Camillo Penna, ressalta que a expansão projetada para 2020 ocorrerá sobre base mais forte - realista. Os números de 2018 foram prejudicados pela greve dos caminhoneiros e pela desaceleração do crescimento da economia.

O cenário de referência projetado pelo SNIC para este ano - com aumento de 3,6% das vendas - considera continuidade de aprovações das reformas e de inflação e juros baixos, alem de avanços nas privatizações e no programa de concessões de infraestrutura. Considera ainda crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil na faixa de 2% a 2,5%. Outra aposta, que se espera deslanchar neste ano e ganhar fôlego em 2021, é no setor de saneamento, onde há muita coisa a ser realizada. “As mudanças regulatórias do saneamento vão ser um vetor de investimentos privados neste ano”, afirma.

Como parte da reforma tributária, Penna diz ser necessário buscar solução para a desoneração da folha de pagamento do setor de construção civil.

Em um ambiente otimista, a expansão estimada pelo SNIC para as vendas de cimento chegaria a 5,1% e, em um cenário pessimista, limita-se a 2,2%.

Se considerada a projeção de referência, o volume de venda de cimento alcançará 56,5 milhões de toneladas, retornando ao nível de 2008. Serão necessários de seis a oito anos, segundo Penna, para que o volume comercializado alcance o recorde de 71,9 milhões de toneladas registrado em 2014 - o melhor ano do setor.

A partir daí, houve quatro anos de retração, até as 52,8 milhões de toneladas de 2018, patamar mais baixo dos últimos dez anos. “Tivemos, de 2015 a 2018, a maior crise da história do setor, com retração acumulada de 27% nas nossas vendas, o que resultou na ociosidade de 47%”, afirma o presidente do SNIC. Mesmo com o crescimento de 2019, há queda acumulada de 24,5% em relação a 2014.

Na crise, foram fechadas 23 fábricas - 14 integradas e nove unidades de moagem. “Há dezenas de fornos desativados ou trabalhando com ociosidade ainda maior do que a média”, afirma Penna. Mesmo com o crescimento obtido no ano passado, nenhuma unidade foi retomada. A crise se refletiu também em queda real de 1,1% dos preços do cimento entre 2014 e outubro de 2019, segundo o presidente do SNIC.

No ano passado, a maior demanda de cimento em obras residenciais, principalmente na cidade de São Paulo, resultou na interrupção das quedas de vendas, atingindo o volume de 54,5 milhões de toneladas. Espera-se que o setor imobiliário tenha nova expansão, em 2020, após apresentar forte crescimento no ano passado. As vendas de imóveis novos e em estoque, com destaque para aqueles destinados às classes média e alta, vêm se beneficiando de juros mais baixos e da maior oferta de financiamento imobiliário.

Penna avalia que o crescimento do segmento residencial será estendido para outras regiões do país neste ano. “Temos expectativa de acréscimo do orçamento do FGTS [Fundo de Garantia do Tempo de Serviço] para casas populares ao longo de 2020”, diz Penna. O segmento de obras de infraestrutura ainda patina - pouco, ou quase nada, tem sido investido em novos projetos.

Edificações habitacionais responderam por 65% do consumo da matéria-prima, no ano passado, edificações comerciais e industriais, por 25%, e infraestrutura, pelos demais 10%. Para 2021, o SNIC projeta crescimento de edificações comerciais e industriais para 22,5% e de infraestrutura, para 15%.

Na avaliação de Penna, o aumento previsto para as vendas de cimento pode não se confirmar caso haja alta expressiva dos preços do petróleo - o coque, insumo usado como energéticos nos fornos, responde por 35% do custo do cimento. Para tentar reduzir a dependência do coque, as cimenteiras têm buscado elevar a utilização de outras fontes de energia, como lixo, caroço de açaí, casca de arroz e outros. Desde 2018, as fábricas elevaram a parcela de calcário “filler”, o que possibilita menos consumo de clínquer e, consequentemente, de combustíveis fósseis.

“Temos de sair dessa dependência do coque, que é um risco alto para o setor”, afirma Penna.

Essas medidas contribuíram para evitar que a diminuição da margem fosse maior. “Lentamente, as empresas começam a se recolocar no mercado. Houve um momento em que a maioria tinha Ebitda negativo”, diz Penna. Hoje, há 24 grupos atuando no setor, com capacidade instalada de 100 milhões de toneladas ao ano. A ociosidade do parque fabril continua alta e não deve se reverter no médio prazo.

 

Fonte: Valor-Empresas, por Chiara Quintão e Ivo Ribeiro- São Paulo, 09/01/2020