Depois do recorde em emissões de debêntures em 2018, com R$ 147 bilhões, segundo levantamento da B3, o mercado espera outro ano aquecido para essas operações em 2019. A manutenção da taxa Selic em patamar baixo, a maior demanda dos investidores por crédito privado e a perspectiva de retomada dos investimentos com a aceleração da economia devem impulsionar as ofertas. Soma-se a essa combinação o custo mais atrativo do mercado doméstico em comparação ao externo.

O mercado de capitais deve ganhar maior relevância no financiamento das empresas em um governo em que o crédito subsidiado tende a diminuir. "Há potencial de ser mais um ano recorde de emissões de debêntures", diz Guilherme Silveira, superintendente-executivo de mercado de capitais de dívida do Santander. Para ele, o crescimento das emissões de debêntures deve ficar em linha com o observador em 2018 - que foi de 52%.

Só em janeiro, até o dia 7, já foram captados quase R$ 5 bilhões em debêntures. Há mais R$ 6,6 bilhões de operações em andamento, que devem levar o volume neste mês a superar os R$ 7,6 bilhões registrados em janeiro do ano passado.

O Banco do Brasil já tem o mandato para cerca de 30 emissões de dívida no mercado doméstico ainda no primeiro trimestre de 2019. "Vemos uma demanda aquecida principalmente para debêntures de infraestrutura com a criação de novos fundos de debêntures incentivadas", diz Fernanda Peres Arraes, gerente-executiva do BB na diretoria de mercado de capitais.

As emissões de debêntures de infraestrutura também foram recorde em 2018, chegando a R$ 21,970 bilhões até novembro - avanço de 142,5% em relação ao volume total de 2017, mas ainda uma parcela pequena do total captado nesse segmento.

Segundo o vice-presidente da área de banco de investimento do Banco ABC, José Eduardo Laloni, os planos de concessão e privatização do novo governo devem impulsionar a emissão de debêntures de infraestrutura.

O crescimento das emissões, contudo, vai depender do encaminhando do ajuste fiscal. "A aprovação da reforma da Previdência é 'sine qua non' para o Brasil dar certo", pondera Daniel Vaz, chefe da área de mercado de dívida local do BTG Pactual.

A mudança da política de atuação do BNDES, com a adoção da taxa de Longo Prazo (TLP) nos financiamentos concedidos pelo banco, tornou o mercado de capitais mais competitivo. Para o primeiro trimestre deste ano, a vantagem do mercado de capitais tende a continuar, com a TLP fixada em 7,03%, acima dos 6,5% da taxa Selic.

"Muitas empresas emitiram debêntures em 2018 para pagar antecipadamente empréstimos contratados com o BNDES", afirma Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe) e autor do estudo. Esse foi o caso da Celeo Redes Transmissão, que emitiu R$ 565 milhões em debêntures pela primeira vez no ano passado para quitar dívidas existentes com o BNDES e também para distribuir dividendos ao seu acionista controlador, a Celeo Redes Brasil. "Com o Joaquim Levy no BNDES devemos ver muitas operações de financiamento de projetos via mercado de capitais", afirma Vaz, do BTG Pactual.

Com a queda da Selic, o custo médio das emissões de debêntures realizadas entre janeiro e novembro de 2018 recuou para 105,4% do CDI contra 105,7% do mesmo período do ano passado. A taxa mais baixa levou ainda a um outro efeito: os investidores passaram a buscar papéis com prazos mais longos para garantir retornos maiores. O prazo médio das emissões de debêntures subiu de 4,7 anos para 6,3 anos. Já nas debêntures de infraestrutura, o prazo médio chega a 10,3 anos.

Diante da taxa básica de juros mais baixa, a demanda por papéis de crédito privado cresceu. A fatia de debêntures em carteira dos fundos de investimentos, por exemplo, subiu de 2,88% para 3,6%.

O aumento da fatia de crédito privado também foi verificado no portfólio dos clientes do private banking. No Banco do Brasil, o total de recursos alocado em debêntures e Certificados de Recebíveis Imobiliário (CRI) e do Agronegócio (CRA) nas carteiras dos clientes de private banking cresceu 37% de setembro de 2017 a setembro de 2018 - acima da média do mercado.

"Além de avançarmos em volume, aumentamos a quantidade de clientes interessados neste tipo de papel", diz Julio Vezzaro, gerente-executivo de negócios e soluções da unidade de private bank do Banco do Brasil. Em um ano, o número de novos clientes do BB Private que adquiriram esses títulos cresceu 20%. "Esperamos que 2019 seja ainda mais positivo para essas operações, com o dobro de ofertas", afirma.

De acordo com o estudo do Cemec-Fipe, a participação dos títulos de dívida emitidos nos mercados de capitais doméstico no financiamento das empresas cresceu de 28,9% em 2017 para 31,2% em setembro de 2018. Já o crédito com recursos livres passou de 37,9% para 38,4%, enquanto a contratação de crédito direcionado recuou de 33,20% para 30,4% no período.


Fonte: Valor, por Silvia Rosa - de São Paulo, 08/01/2019